Mostrando postagens com marcador encontros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador encontros. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

mar


Aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar

O mar
não parou
pra ser olhado

Foi mar
pra tudo quanto é lado

- Paulo Leminski, via

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

ouvir além das palavras


"A escuta profunda brota de um estado de relaxamento, não do esforço em aparar arestas. Toda a abertura, acolhimento e empatia necessários para ouvir encontram solo fértil ao se oferecer uma postura relaxada.

As pessoas se comunicam em vários níveis. Tudo fala. As roupas, os olhares, a respiração, um jeito específico de se curvar ou se levantar, a forma como batemos as mãos ou os pés. Cada pequeno detalhe tem voz, toca uma música.

Assim como é preciso treinar os ouvidos para discernir timbres, tons e efeitos em uma música, também precisamos treinar para realmente ouvir, comunicar e gerar conexão.

Quem já teve a oportunidade de assistir uma orquestra tocando ao ar livre pode relatar como o ambiente inteiro se relaciona com o que está sendo tocado. Não é algo metafísico, nem fantasioso. O vento sopra de uma forma diferente, todos se olham, sorriem silenciosamente, as árvores balançam, os pássaros enlouquecem.

Quando uma pessoa fala, algo similar acontece. Há uma variedade de outras ações sendo executadas ao redor e isso pode facilitar ou dificultar o processo. Às vezes, ela pode estar querendo desabafar, mas o ambiente não é favorável. Algum ruído pode surgir ou pode ser que haja pessoas ao redor em outra sintonia. Um sujeito atento pode tomar uma ação simples como trocar de lugar, alterando os níveis de abertura e conforto.

Enquanto ouve, é importante não só estar atento aos sinais abstratos mas observar as reações físicas do outro. Será que está se distraindo? Está se mexendo demais, está desconfortável, tentando encerrar o assunto, está indiferente?"

(Luciano Ribeiro, via)

fragilidade


Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
Feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.

- Carlos Drummond de Andrade, via

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

o melhor remédio


O melhor remédio é uma mente sã, um sorriso verdadeiro, um coração tranquilo.
Para toda cura, a Verdade 
Para toda conquista, o Respeito 
Para todo esforço, a Prosperidade
Para toda desavença, a Compaixão
Para toda dificuldade, a Esperança 
Para toda vitória, a Fé 
Para todo caminho, a Força 
Para toda tristeza, o Abraço 
Para todo elo, a Confiança 
Para todo o mal, o Amor.

- Caroline Ienne

sábado, 18 de janeiro de 2014

é preciso saber aceitar as próprias pausas


"É preciso saber aceitar as próprias pausas. (...)

No fundo, as cartas a Deus são as únicas cartas de amor que devem ser escritas. (...) É preciso ser capaz de viver sem livros e sem nada. Sempre haverá um pedacinho de céu que se pode olhar e um espaço suficiente dentro de mim para juntar as mãos em uma oração. (...)

A minha vida tornou-se um diálogo ininterrupto contigo, meu Deus, um único grande diálogo. Às vezes, quando estou em um cantinho do campo, os meus pés plantados na sua terra, os meus olhos voltados para o teu céu, o meu rosto se inunda de lágrimas que brotam de uma emoção profunda e de gratidão. Mesmo à noite, quando, deitada no meu leito, me recolho em ti, meu Deus, lágrimas de gratidão inundam o meu rosto: e essa é a minha oração."

- Etty Hillesum, aqui

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

pedra


Na pedra recolho
o sol na pedra quente, imóvel.
E o pródigo calor pródigo,
imóvel, ao corpo que se abeira
desse lago plácido.
Sem turbulência a alma aqueço
ao sol e vai-se este calor
à alma que se abeira, imóvel.
É um signo simples, cadência
de água, incandescência e sol
de quem só se encontra
em plenitude ou ânsia
na pedra quente e só.

- Dora Ferreira da Silva , via

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

a revolução, fora e dentro

Scarpini

Amanhã você vai sair — ou voltar — às ruas e fazer a revolução.

Sem medo, sem máscara, vai dizer “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” a todos os conhecidos e desconhecidos que passarem por você. No elevador, no estacionamento, no ônibus, na fila da padaria. E se ninguém responder, não importa. Você vai manifestar um sorriso largo como uma avenida e seguir em frente.

Porque é para frente que se anda.

No trânsito, vai dar passagem a todos os outros carros assim que vir uma seta piscar, indiferente às buzinas nervosas de quem vier atrás. E quando alguém fizer a mesma gentileza por você, não vai esquecer de acenar em puro e simples agradecimento.

Ao ligar o ônibus coletivo com o qual circula pela cidade todos os dias, vai se lembrar de que está conduzindo pessoas e não caixas de verdura. E de que os milhares de veículos lá fora não são seus adversários em uma corrida para lugar nenhum.

Vai começar todo e qualquer pedido com “por favor” e concluí-lo com “obrigado”.

Quando reunir seu batalhão no quartel, em vez de gritar “ordinário, marche”, vai orientá-lo a ler a Constituição Brasileira e qualquer um dos livros de Carlos Drummond de Andrade. Para que seus soldados percebam, do alto de seus coturnos, o quanto as coisas às vezes não fazem mesmo sentido. E descubram o quanto a autoridade que lhes foi atribuída pode ser usada não para reprimir e subjugar, mas para fazer da vida uma extraordinária marcha para frente.

Porque é para frente que se marcha.

No hospital público em que você, doutor ou doutora, dá plantão de madrugada, vai atender cada paciente com a calma, a seriedade, a competência e o respeito devidos a qualquer ser humano. E vai sentir vergonha de todas as vezes em que se dirigiu a essas pessoas como se você fosse um ser superior vestindo branco e elas não passassem de malditas desvalidas atrás de uma injeção “de graça”.

Nas cerimônias religiosas, vai retribuir a confiança de quem o chama de padre, pastor ou pai de santo não apenas com uma benção, um sermão ou um passe, mas pedindo às pessoas que façam uma oração para aqueles que protestam e para aqueles contra quem se protesta. E que nessa oração, o único pedido seja a compreensão e a clareza, para que todos saibam realmente o que estão fazendo, contra quem, contra o quê e como estão se manifestando.
Nos veículos de comunicação que você dirige, vai determinar a seus repórteres, redatores, editores e afins que se concentrem no factual, que ouçam, analisem e publiquem todas as visões possíveis de cada fato. E que deixem os leitores, ouvintes e telespectadores concluírem como bem entenderem.

Nas escolas e nas faculdades, vai ensinar seus alunos a ver e pensar política de outro modo, para além dos discursos e dos partidos, com profundidade, amplitude e perspectiva. Com inteligência, liberdade e espírito crítico.

Nas redes sociais, antes de curtir e compartilhar qualquer post sobre qualquer assunto, você vai pensar. E vai pensar de novo, até se certificar de que realmente acredita naquilo.

E quando alguém próximo a você esbravejar palavras de ódio e apoio à violência — seja da parte de quem se manifesta depredando, seja do lado de quem defende agredindo — você não vai discutir. Vai respirar fundo, pensar consigo “let it be” e seguir em frente. Porque há vários lados nessa história, mas nenhum deles é “o adversário”. E você está em todos eles.

Você é o mínimo de inteligência que resiste em cada homem e cada mulher que ainda respiram neste mundo, brutalizados e amortecidos pela doença da normalidade que torna tudo banal — as mortes, os estupros, a violência doméstica, a roubalheira nos cargos públicos, o corrupto e o corruptor, o ódio e a maldade.

Amanhã você vai sair às ruas e fazer a revolução. E se ninguém mais aderir, não importa. Você vai manifestar um sorriso largo como uma avenida e seguir em frente.

Porque é para frente que se anda.

E a revolução “lá fora” só começa depois de uma outra, aquela que acontece “aqui dentro”.

- André J. Gomes, Revista Bula

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

unidade na diversidade

volatilidade: interioridade e alteridade no mundo de hoje

Foto: Kenji Aoki

(...) Relações voláteis geram identidades igualmente voláteis. Incertas. Mutantes. Formam-se a partir delas personalidades auto-referenciadas, de uma autonomia não livre, mas compulsiva. São além disso identidades temporárias, que podem ser apagadas e substituídas por outros rótulos. A memória, atrofiada pelo ritmo da vida líquida pós-moderna, ensina que esquecer é o melhor, a fim de poder reescrever na lousa apagada uma nova identidade. Hoje me auto compreendo assim, amanhã já será diferente. São igualmente identidades plurais, abertas, sem escolhas ou decisões que empenhem a vida.

Os vínculos admitidos são aqueles que cabem nas redes, como Facebook, Orkut, etc. Ali não se depende de relações afetivas que pesam e tiram mobilidade. E quando a comunicação não mais interessar, pode-se cortá-la com a ligeireza de um click. E novamente mergulhar na mais profunda solidão e vazio de sentido a que este estado de coisas condena o sujeito pós-moderno. A única relação que não o ameaça é aquela que ele estabelece com o seu eu, convertido no mortal espelho de Narciso. Voltar-se para si mesmo é a única instancia dotada de certa permanência em um mundo complexo, incerto e inevitável.

A interioridade humana hoje vai se convertendo em um novo paradigma emergente. Trata-se, sem dúvida, de uma dimensão constitutiva do ser humano. O que se dá, no entanto, de fato, é um estreitamento da interioridade, que se vive em grande medida pelo fluxo sempre em movimento das sensações que absorvem, não favorecendo o encontro profundo com o próprio eu, e por conseguinte tampouco com o outro.

Por um lado, trata-se de um sintoma extremamente positivo, uma vez que denota o advento da já iniciada recuperação do espiritual como dimensão de importância iniludível na vida humana. Os seres humanos de hoje experimentam, de novo, aquilo que Santo Agostinho escreveu em seu memorável livro das Confissões: “Eu não amava ainda e amava amar: buscava o que poderia amar, amando amar”.

Por outro lado, esse voltar-se para dentro de si mesmo pode incluir e efetivamente inclui a tentação de esconder-se em si mesmo e terminar não conseguindo daí sair . E a conseqüência é o estreitamento da própria interioridade que tem como resultado o fechamento ao outro. E uma terrível e desesperadora solidão.

(...) O vazio que isto gera já é bastante para denunciar que o ser humano é constituído pelo primado da alteridade. Apenas nos olhos do outro vejo quem sou e descubro minha identidade que já não pode dispensar a diferença do outro para autocompreender-se. A intimidade do sujeito humano só existe habitada pela presença de um Mistério.

A volta à interioridade como paradigma não pretende ser, portanto, um ensimesmamento do eu. Mas sim a condição indispensável para o reconhecimento da Presença que habita o humano. E esse reconhecimento, por sua vez, exigirá da pessoa humana um êxodo, uma saída de si, em direção ao outro, humano e divino, em relação com o qual é imperioso entrar para re-encontrar-se e re-conciliar-se com sua identidade perdida. A volatilidade é inimiga desse fundamental encontro marcado desde toda a eternidade.

- Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio | Publicado originalmente no site do Amai-vos

invenção de orfeu


Qualquer que seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios.
Porém se não surgir o que sonhamos
e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.
Feliz de quem com cânticos se esconde
julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.
E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas.

- Jorge de Lima

Invenção de Orfeu. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 53 – 26ª parte do Primeiro Canto (via)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

uma política dos afetos


A verdadeira tarefa política é a reconstrução de nossos afetos. Inebriados por discussões a respeito de sistemas de normas e instituições, demoramos muito tempo para perceber que a política é, acima de tudo, uma questão de mobilização de afetos. Discursos circulam e levam os corpos a sentirem de uma determinada forma, a temerem certas situações.

A política é a arte de afetar os corpos e de levá-los a impulsionar certas ações. Devido a isso, nunca entenderemos nada das dinâmicas dos fatos políticos se esquecermos sua dimensão profundamente afetiva.

Por exemplo, não é difícil perceber como, nas últimas décadas, uma máquina de medo e ressentimento foi colocada em funcionamento.

Esses são, há tempos, os principais afetos que circulam no campo político. Medo do tempo que não conhecemos e que pode ser diferente do passado e do presente. Medo de ficar longe demais da segurança da "nossa terra", de ser assaltado, de ter sua propriedade violada, da morte violenta. Mas, principalmente, um ressentimento travestido de pessimismo prudente a respeito dos acontecimentos e da errância necessária à toda procura.

A política baseada no ressentimento é, de fato, algo a ser pensado. Talvez possamos dizer que, em política, o ressentimento é sempre o sentimento mobilizado contra a errância.

Quando um acontecimento ocorre, muitas vezes ele não instaura imediatamente uma nova ordem. Só em situações muito amadurecidas, e por isso mesmo muito raras, vemos essa passagem imediata de uma ordem a outra. Normalmente, acontecimentos são aquilo que instaura uma nova errância, com seus erros, suas perdas, seu tempo confuso.

Esse tempo confuso é, em certas situações, onde acontecimentos ocorrem "cedo demais", praticamente inevitáveis. Contra ele, o ressentimento sempre dirá: melhor que nada tivesse ocorrido, melhor ter ficado na situação passada, por mais que ela fosse insatisfatória, ou seja, vamos dar um jeito de voltar à antiga morada, mesmo que ela esteja em ruínas. Basta ver o que hoje lemos a respeito das revoltas no mundo árabe.

No entanto, esse tempo confuso produzirá sua própria superação, por mais que ela demore, por mais que refluxos ocorram, mas à condição de produzirmos novos afetos.

Nesses momentos, cria-se uma divisão entre os que se voltam aos velhos afetos de sempre e aqueles capazes de adquirir uma nova confiança, uma nova força, mesmo quando o céu é turvo. Pois eles sabem que nunca haverá nova política com os velhos sentimentos de sempre.

- Vladimir Safatle

Fonte

domingo, 12 de janeiro de 2014

ponto final


"Meditar não é evitar problemas ou fugir das dificuldades. Nossa prática não consiste em fugir. Nossa prática consiste em adquirir bastante força para enfrentar, efetivamente, os problemas. Para isso, precisamos estar calmos, sólidos e viçosos. É por isso que precisamos praticar a arte do ponto final. Quando aprendemos a parar, ficamos mais calmos, e a nossa mente, mais lúcida, como as águas que ficam mais claras após terem se assentado as partículas de lama. Sentando tranquilamente, apenas inspirando e expirando, desenvolvemos força, concentração e lucidez. Portanto sentem-se como uma montanha. Nenhum vento pode derrubar uma montanha."

- Ven. Thich Nhat Hanh

o pequeno Diego diante do grande Mar


Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. 

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. 

E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. 

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!

- Eduardo Galeano

sábado, 11 de janeiro de 2014

a si mesmo


A vida não é para você encontrar a si mesmo. É para você criar a si mesmo.

- George Bernard Shaw

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

poema de natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

- Vinicius de Moraes, via

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

o mais raro do mundo


Um bom jornalista conhece a arte de perguntar e, mais ainda, a de escutar. Foi o que fez Richard Stengel, da Time, em uma longa convivência com Nelson Mandela. Ele desejava muito saber o que havia realmente mudado nos 27 anos em que esteve preso o mais famoso líder político do século. Após longo tempo se esquivando da questão, um dia, já exasperado, disse Mandela: “Saí maduro”. Aprendera a controlar os impulsos mais juvenis, pois na prisão havia pouco para controlar, o que restava era aprender a se controlar. Não havia lugar para impulsividade, para sentir pena de si ou ser indisciplinado. Criou objetivos a longo prazo, entendeu que devia mudar a forma de pensar a política, para pôr fim ao cruel racismo branco. O caminho não passaria pela violência, mas, sim, por negociações e pela democracia. Isso e muito mais está no livro Os Caminhos de Mandela, um verdadeiro autoajuda para se pensar a vida, seja a de Mandela e, principalmente, a nossa.

Em suas memórias, André Malraux concluiu que o mais raro no mundo é o homem maduro. Perguntei a algumas amigas sobre essa afirmação e logo sorriram com um ar de superioridade. Estão certas, nós, homens, tendemos a ser mais infantis, em geral demoramos a cuidar sozinhos de nossas vidas. É todo um aprendizado conviver consigo mesmo, suportar certa solidão e amar a liberdade e a independência. Entretanto, os jovens, em geral, não gostam da palavra maduro, pois escutam muitas vezes, de nós mais velhos, que ainda não amadureceram. Recordo, por exemplo, que, em tempos estudantis, nada era mais irritante que a frase: “Os jovens são incendiários, e os velhos, bombeiros”. Afirmação que atribuíamos aos conservadores, invejosos da juventude. Por sua vez, será que os jovens mais exaltados das manifestações de junho do ano passado ao envelhecerem vão mudar? Creio que sim, aprenderão outras formas de luta, como ocorreu com a geração 68 do movimento estudantil, ou podem se tornar céticos. São frequentes as mudanças de se pensar a vida ao longo do caminho.

A palavra maduro não existe nos dicionários de psicanálise que conheço, é até evitada no mundo Psi, pois cada pessoa tem seu conceito de maturidade; a palavra se presta a um ideal normativo. Uma pessoa madura pode ser entediante, empobrecida e adaptada a uma vida esvaziada de sentido. Agora, se quisermos ir mais além do que disse Mandela: “Saí maduro” da prisão, ou Malraux sobre a raridade do homem maduro, arriscaria uma ideia. À medida que vamos envelhecendo, convém fazer as pazes com o nosso passado, os pais, e consigo mesmo. Só assim se pode desenvolver o conceito africano de ubuntu - fraternidade. Na verdade, cada vez mais precisamos de parcerias em tempos de tantas mutações que ainda não podemos entender. Estamos necessitando de banhos de humildade, convém pensar a velha sabedoria zulu: Umuntu ngumuntu ngabantu - Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas.

- Abrão Slavutzky, psicanalista 

identidade


"Você tem de criar sua própria identidade. Ela não é herdada. Não apenas você precisa fazer isso a partir do zero, mas você tem de passar a sua vida, de fato, redefinindo a sua identidade. (...)

Nós, a humanidade no planeta, multiplicamos as conexões, as relações, as interdependências, as comunicações espalhadas por todo o mundo. Estamos agora em uma posição em que todos nós dependemos uns dos outros."

- Zygmunt Bauman

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

o amor é um mistério


"Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como fator de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério."

José Saramago, in "Revista Máxima", outubro/1990.

duas portas


"Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo, e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos."

Bernardo Soares, heterônimo de Pessoa, no "Livro do Desassossego".

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

mensageiro de natal


Para mim, uma perfeita tradução do espírito do Natal: despertar e ir ao encontro do outro.

Gustavo Oliveira, estudante, 18 anos, narra ao repórter Roberto de Oliveira a sua experiência de escrever cartões natalinos para passageiros que transitam no terminal rodoviário Tietê, em São Paulo, o maior do Brasil.


"Ela chegou confiante. Puxou a cadeira na minha frente do outro lado da mesa. Sentou-se. Em suas mãos, passaram os quatro modelos de cartões de Natal que temos.

Olhou cuidadosamente cada um deles. Ensaiou pegar uma caneta, mas não avançou. Daí, ficou desconcertada. Cabisbaixa, olhou bem nos meus olhos e confessou com a voz engasgada que não sabia ler nem escrever.

Disse ter 23 anos de idade e ter deixado Manaus para trabalhar como doméstica em São Paulo. Veio mesmo atrás do marido. Era bem bonita.

Com ela, trouxe o filho, de sete anos. Tudo isso ela me contou ali, enquanto ensaiava algumas frases para que eu colocasse em seu cartão de Natal. De certo apenas o destinatário: o marido que ela iria deixar por aqui.

Eu até que mostrei as seis listas com as sugestões de frases, mas aquela moça, como tantos outros que passam diariamente pelo Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, prefere assim: contar um pouco da sua história para que, a partir dela, eu ou os meus colegas escrevamos o que a gente achar melhor.

Pergunto sobre a relação deles com os parentes. Afinal, a expressiva maioria dos cartões de Natal que escrevo é endereçada a algum familiar.

Ao fechar o envelope, a sensação que aquela moça me passou foi a de que estivesse encerrando um ciclo de sua vida. Como se dissesse adeus ao marido. Percebi que tal rompimento ainda não estava bem resolvido para ela.

Ao se despedir, ela me contou que iria visitar uma tia-avó que mora no Espírito Santo. Nem ela parecia acreditar que a viagem seria curta. Voltou-se para o menino, segurou a mão dele e partiu.

Na minha cabeça de garoto da zona oeste paulistana, filho único de uma família de classe média, ligado às novas mídias digitais, tinha uma visão equivocada sobre o perfil dos analfabetos brasileiros.

Até então, acreditava que quem não sabia ler nem escrever eram velhinhos, gente que veio de lugares pobres e desassistidos das zonas rurais brasileiras. Graças a essa experiência que estou passando na rodoviária do Tietê, vejo que não é bem assim.

As desigualdades no Brasil são tão gritantes que provocam todos os tipos de distorção. De cada dez pessoas que sentam aqui interessadas em um cartão de Natal, ao menos três são analfabetas. É muito surpreendente para um país que se diz "rico".

Desencontros

Apesar de estar escrito que o cartão e o envio dele são gratuitos, a primeira pergunta que as pessoas me fazem é se é de graça. Há aqueles que sabem escrever muito bem e até me corrigem. Falam quando há "vírgula", "dois pontos", "exclamação". Elas se sentem orgulhosas em ditar.

Quase ninguém sabe o CEP.

Na semana passada, uma senhora bem arrumada enviou um cartão de Natal para o marido e para o ex-marido.

Até aí, tudo bem, mas um detalhe curioso me chamou a atenção: os dois moram na mesma rua.

São quase vizinhos. Ainda perguntei para ela se de fato os endereços estavam certos. Ela confirmou.

Um rapaz de 25 anos contou que foi afastado da mãe quando criança. O pai veio da Bahia para trabalhar em São Paulo e trouxe o bebê junto.

Fazia mais de 20 anos que ele não via a mãe. Emocionou-se ao me pedir para que escrevesse um cartão de Natal narrando sua vida, seu emprego e suas esperanças de em breve reencontrá-la. Fiquei emocionado ao ouvi-lo.

Nesse caso, ele mesmo fez questão de escrever o cartão de próprio punho.

Outra crença que se mostrou diferente da realidade foi a de que eu imaginava que o ciclo de nordestinos que vêm trabalhar em São Paulo havia se encerrado há tempos. Só que eu estava enganado.

Muitos deles chegam todos os dias a esta rodoviária. Parte deles não sabe ler nem escrever. Quase todos ficam completamente perplexos quando olham para o metrô.

Essa grandiosidade de São Paulo surpreende e assusta.

Também aqui ficou mais explícito para mim como o preconceito contra os nordestinos ainda persiste.

Meus pais também vieram de fora. São mineiros. Tenho a pela morena. Tive a sorte de crescer cercado de privilégios e nunca sofri preconceito.

Ao escrever cada palavra, frase, cartão de Natal, eu me sinto um pouco realizado.

Quando coloco o cartão no envelope, tenho a sensação de que é possível, sim, tornar esse mundo ao menos um pouco mais humanitário.

Ou será que estou apenas sob o efeito do Natal?"

Fonte