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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

salmo 138


Iahweh, tu me sondas e conheces:
conheces o meu sentar e o meu levantar,
De longe penetras o meu pensamento;
examinas o meu andar e o meu deitar,
meus caminhos todos são familiares a ti.

A palavra ainda não me chegou à língua,
e tu, Iahweh, já a conheces inteira.
Tu me envolves por trás e pela frente,
e sobre mim colocas tua mão.
É um saber maravilhoso, e me ultrapassa,
é alto demais: não posso atingí-lo!

Para onde ir, longe de teu sopro?
Para onde fugir, longe da tua presença?
Se subo aos céus, tu lá estás;
se me deito no Xeol, aí te encontro.

Se tomo as asas da alvorada
para habitar nos limites do mar,
mesmo lá é tua mão que me conduz,
e tua mão direita que me sustenta.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

ser no presente


Quem se senta e fica imóvel imediatamente se conecta com o primeiro nível de consciência, que fica um pouco abaixo da superfície de atenção do funcionamento cotidiano da mente. Trata-se de uma dura constatação, a do grau de indisciplina e inquietude de nossa mente (...). Santa Teresa comparava isso a um navio cuja tripulação se amotinou, prendeu o capitão e se revesa caoticamente no comando do navio. Alguns dias podem ser melhores do que outros, em matéria de distração, mas até mesmo isto, apenas prova como é inconstante a superfície de nossa mente, como depende das condições externas, como somos descentrados. (...)
“Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa? (Mt 6, 26) Nossa meta é a de ser no presente momento, que é o único momento de realidade, de encontro com o Deus que é “Eu Sou”. No entanto, em questão de segundos, estamos pensando pensamentos de ontem, fazendo planos para amanhã, ou encadeando sonhos e desejos de realização no reino da fantasia. “Buscai em primeiro lugar seu Reino e sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de manhã se preocupará consigo mesmo”. (Mt 6, 33) O ensinamento de Jesus sobre a prece é simples e puro, incisivamente sábio e de bom senso. Ainda assim, parece estar muito além de de nossa capacidade de colocá-lo em prática. Será que ele estava mesmo se dirigindo ao comum da humanidade?
A descoberta do nosso nível de distração é fonte de humildade. Ajuda a nos lembrar que [o mantra] é uma descoberta universal. Por que outra razão teria João Cassiano recomendado o mantra (que ele chamava de "fórmula") mil e seiscentos anos atrás? (...) Diante dessa descoberta, é fácil nos desencorajarmos e darmos as costas para meditação. "Não é meu tipo de espiritualidade. Eu não sou do tipo de pessoa disciplinada. Por que meu período de oração deve ser mais um período de trabalho?" Esse desencorajamento frequentemente oculta um sentimento recorrente de fracasso e de inadequação, o lado fraco de nosso ego machucado e que se rejeita: “Não sou bom pra nada, nem mesmo para a meditação”.
O que precisamos acima de tudo, neste estagio, (...) é de um discernimento do significado da meditação e de uma sede que brota de um nível mais profundo de consciência do que aquele ao qual estamos presos (...).

A compreensão clara, desde o início, do que é o significado e o propósito do mantra, nos ajuda. Não se trata de uma varinha de condão que esvazia a mente, ou um interruptor que nos liga a Deus, mas, de uma disciplina, “que começa na fé e termina no amor”, que nos leva à pobreza do espírito. 

Não repetimos o mantra para eliminar as distrações, mas para nos ajudar a desviar nossa atenção delas. Apenas para descobrir que somos, ainda que modestamente, livres para dirigir nossa atenção em outra direção é o primeiro grande despertar. Trata-se do início do aprofundamento da consciência, que permite deixar as distrações na superfície, tal como as ondas na superfície do oceano.

- Laurence Freeman, OSB

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

invenção de orfeu


Qualquer que seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios.
Porém se não surgir o que sonhamos
e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.
Feliz de quem com cânticos se esconde
julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.
E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas.

- Jorge de Lima

Invenção de Orfeu. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 53 – 26ª parte do Primeiro Canto (via)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

busco teu nome

Sufis persas do Curdistão

Assim,
entre as rochas,
sobre os montes,
busco Teu nome.
Busco Teu nome
como o buscam os pássaros
voando pelos céus,
os peixes nadando pelos mares,
os antílopes correndo pelas planícies.
Como o homem que ama e deseja,
busco Teu nome: Deus…

Amo Teu nome.
canto Teus louvores,
agradeço,
enumero e digo Teus atributos.
Amo Teu nome.

Conheci o mundo e as coisas.
Aprendi.
E, apesar de tudo,
não conheço nem o mundo nem as coisas.

Minha cabeça está descoberta,
descalços os meus pés.
A tudo renuncio;
sigo, porém, buscando o Teu nome…

Com a voz de todos aqueles
que Te amam e Te chamam:
Amo Teu nome.

- Yunus Emre, via

domingo, 12 de janeiro de 2014

o necessário resgate do sagrado


Uma dimensão sine qua non para inaugurar uma nova aliança para com a Terra reside no resgate da dimensão do sagrado. Sem o sagrado a afirmação da dignitas terrae e de seus direitos permanece uma retórica sem efeito. O sagrado constitui uma experiência fundadora. Ele subjaz às experiências que deram origem às religiões e às culturas humanas.

Os últimos séculos se caracterizam por uma sistemática intervenção nos ritmos da natureza a ponto de ficarmos surdos à musicalidade dos seres e cegos face à grandeur do céu estrelado. Com isso perdemos a experiência do sagrado do universo. Em seu lugar entrou a vigorar vasta profanidade, que reduziu o universo a uma realidade inerte, mecânica e matemática e a Terra a um simples armazém de recursos entregues à disponibilidade humana. Tirou-se a palavra de todas as coisas, para que só a palavra humana imperasse.

Se não conseguirmos resgatar o sagrado, dificilmente garantiremos o respeito à Terra e aos demais seres que possuem um valor intrínseco. A ecologia se transformará numa técnica de simples gerenciamento da voracidade humana mas jamais em sua superação. A pretendida nova aliança significará apenas uma trégua para que a Terra se refaça das chagas recebidas, para logo em seguida receber outras, porque o padrão das relações agressivas não mudou nem transformou nossa atitude básica de ausência de respeito e de sacralidade.

Antes de qualquer outra coisa, cumpre que nos reencantemos com o universo. Isso foi bem expresso pelo astronauta norte-americano Edgar D. Mitchell, em 1971, sobre a Apolo 14 a caminho da lua. Exclamava boquiaberto: "Daqui, a milhares de milhas de distância, a Terra mostra a incrível beleza de uma joia esplêndida de cor azul branca, flutuando no vasto céu escuro. Ela cabe na palma de minha mão. Nela está tudo o que é sagrado e amado por nós”.

Que é o sagrado? Não é uma coisa. É uma qualidade das coisas, que de forma envolvente nos toma totalmente, nos fascina, nos fala ao profundo de nosso ser e nos dá a experiência imediata de respeito, de temor e de veneração.

Rudolf Otto, um clássico estudioso do fenômeno em O sagrado (das Heilige), descreve em duas palavras-chave a experiência do sagrado: o tremendum e o fascinosum. O tremendum é aquilo que nos faz tremer por sua magnitude e pelo desbordamento de nossa capacidade de suportar a sua presença. Esta nos faz fugir devido a sua arrasadora intensidade. E ao mesmo tempo, é o fascinosum, vale dizer, aquilo que nos fascina, nos arrasta como um íman irreprimível porque nos concerne absolutamente. O sagrado é como o sol: sua luz nos arrebata e nos enche de entusiasmo (fascinosum). E ao mesmo tempo nos obriga a desviar o olhar porque pode nos cegar e queimar (tremendum).

É essa experiência ambivalente que os seres humanos originários fizeram e nós ainda podemos fazer em contato com o cosmos, com a Terra, com a vida. com as pessoas carismáticas, com a atração amorosa entre um homem e uma mulher. Sentiram comunicar-se nestas realidades uma força irrefragável, expressa classicamente pela palavra melanésia de mana ou pelo axé das religiões afro. Potencialmente, todas as coisas são portadores de mana ou de axé. São por excelência a revelação do sagrado, sua epifania e diafania.

Por debaixo de tudo opera, como nos dizem os modernos cosmólogos, a Energia fontal, o Abismo gerador de todas as coisas, o Spiritus Creator. O sagrado irrompe em nós quando internalizamos a visão contemporânea do universo em evolução e em cosmogênese. Não basta esta cosmovisão que pode ser encontrada no Google. Do que precisamos é de uma comoção e uma experiência de choque. Precisamos sentirmo-nos dentro destes conhecimentos sobre o cosmos, a Terra e a natureza, porque são conhecimentos sobre nós mesmos, sobre nossa ancestralidade e sobre a nossa realidade mais profunda. São tais comoções que modificam nossas vidas.

Como não se extasiar diante da imensidão de energia ejetada na singularidade do big bang, na formação do campo de Higgs, que permitiu conferir massa às partículas originárias, a constituição das nuvens de gases que originaram a primeira geração de estrelas que. depois de explodirem. deram origem às galáxias, às estrelas, aos planetas e a nós mesmos. É o fascinosum.

Que existe de mais tremendo e misterioso do que a massiva destruição da matéria inicial pela anti-matéria sobrando apenas uma bilionésima parte, da qual se origina todo o universo e nós mesmos? Aqui o tremendum se associa ao fascinosum. E poderíamos enumerar outras tantas experiências.

Todas elas nos colocam diante de uma realidade cuja melhor forma de abordá-la é pela teoria da complexidade pela qual os contrários se fazem complementares, aceitar que somos parte e parcela deste Todo. Só nos integramos e nos sentimos em casa quando nos associamos a essa sinfonia e disfonia, quando compreendemos que o bumbo convive com o violino, quando usamos nossa criatividade para agirmos com a natureza e nunca contra ela ou à revelia dela.

Esse sagrado assumido nos faz regressar de nosso exílio e despertar de nossa alienação. Ele nos reintroduz na Casa que havíamos abandonado. Somente uma relação pessoal com a Terra nos faz amá-la. E a quem amamos também não exploramos mas respeitamos e veneramos. Agora poderá começar uma nova era, não de trégua mas de paz perpétua (Kant) e de verdadeira re-ligação de tudo com tudo.

- Leonardo Boff | artigo publicado no Jornal do Brasil, 09-12-2012.

sábado, 11 de janeiro de 2014

o sagrado está nos detalhes






Um deslumbramento visual este Kingdom of Plants ("Reino das Plantas"), documentário da BBC realizado nos Kew Gardens, Londres, santuário mundial da UNESCO desde 2003. Porque a beleza - e o sagrado - estão nos detalhes; e os milagres estão acontecendo aqui mesmo, e agora.

Via Hypeness

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

se não falas

Walter Beiter

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

- R. Tagore, daqui

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

o jardim das fadas


Le jardin féérique

Jardin paisible loin dans nos mémoires
Là où la peau nue cache un feuillage
Là où la sève monte au visage
Source nous sommes la source
Patients dans le temps de la nuit
Sans bruit veiller les feuilles et les pierres
Rester immobile allongé sur la terre
Simplement comme feraient le vent ou le courant
Lentement
Nous marchons sous les arbres du jardin
Nous goûtons à la vie avant la vie
Un oiseau posé sur nos branches
Silencieux
Au-dessus le ciel s‘ouvre
Voici le monde qui passe léger dans le souffle
Nous sommes le souffle
Nous sommes souffle
Gravé sur la terre
Là où nos mots prennent vie

O jardim das fadas

Jardim sereno, longe em nossas memórias
Onde a pele nua encobre a folhagem
Onde a seiva sobe à face
Fonte, nós somos a fonte
Pacientes no tempo da noite
Sem ruído, velamos as folhas e as pedras
Permanecemos imóveis, estendidos sobre a terra
Simplesmente, como fariam o vento ou a corrente
Lentamente
Caminhamos sob as árvores do jardim
Saboreamos a vida antes da vida
Um pássaro pousado sobre nossos ramos
Silenciosos
Acima, o céu se abre
Este é o mundo que passa ligeiro no sopro
Nós somos o sopro
Somos sopro
Gravado na terra
Onde nossas palavras ganham vida

"Ma Mère l'Oye" (Mamãe Ganso, suíte) / Le Jardin féerique (O Jardim das Fadas) - Maurice Ravel
Accentus
Direção: Laurence Équilbey
Transcrição: Thierry Machuel
Texto: Benoît Richter
Filme: Andy Sommer
Extraído do DVD "TranscriptionS", Naïve, 2008

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

milagres


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

(Manuel Bandeira)

domingo, 5 de janeiro de 2014

"o fenômeno poético é religioso em sua natureza"


Entrevistador: A senhora acredita que sua poesia perderia o sentido sem a religião? A poesia é mais oração ou mais comunhão? Acredita que pode haver um poeta ateu?

Adélia Prado: Certamente escreveria outro tipo de poesia, mas não deixaria de escrevê-la. No texto de um poeta ateu, o substrato de sua poesia é o mesmo no de um poeta crente. Porque o fenômeno poético é religioso em sua natureza. A poesia, independentemente da crença ou não crença do poeta, nos liga a um centro de significação e sentido, assim como o faz a fé religiosa. Por isso é que a poesia é tão consoladora, dá tanta alegria. Minha formação é religiosa, confesso o que creio e é impossível que nossas profundas convicções desapareçam quando escrevemos. Seria esquizofrênico. Mística e poesia são braços do mesmo rio. Deus me deu o segundo, mas a fonte é a mesma, o Espírito Divino. A despeito de si mesmo, o poeta ateu entrega o ouro em sua poesia. É simples, rigorosamente ninguém é o criador da Beleza (poesia). Ela vem, eu diria como Guimarães Rosa, da terceira margem da alma. O poeta é só o “cavalo do Santo”, queira ou não. Às vezes, somos tentados a desistir quando descobrimos que ela, a poesia, é muito melhor que seu autor. É a tentação do orgulho. Que Deus nos livre dela.

Fonte