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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

canção de alta noite


Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.

- Cecília Meirelles

Presente de Lula Ramires :-)

domingo, 12 de janeiro de 2014

o pequeno Diego diante do grande Mar


Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. 

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. 

E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. 

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!

- Eduardo Galeano

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

o jardim das fadas


Le jardin féérique

Jardin paisible loin dans nos mémoires
Là où la peau nue cache un feuillage
Là où la sève monte au visage
Source nous sommes la source
Patients dans le temps de la nuit
Sans bruit veiller les feuilles et les pierres
Rester immobile allongé sur la terre
Simplement comme feraient le vent ou le courant
Lentement
Nous marchons sous les arbres du jardin
Nous goûtons à la vie avant la vie
Un oiseau posé sur nos branches
Silencieux
Au-dessus le ciel s‘ouvre
Voici le monde qui passe léger dans le souffle
Nous sommes le souffle
Nous sommes souffle
Gravé sur la terre
Là où nos mots prennent vie

O jardim das fadas

Jardim sereno, longe em nossas memórias
Onde a pele nua encobre a folhagem
Onde a seiva sobe à face
Fonte, nós somos a fonte
Pacientes no tempo da noite
Sem ruído, velamos as folhas e as pedras
Permanecemos imóveis, estendidos sobre a terra
Simplesmente, como fariam o vento ou a corrente
Lentamente
Caminhamos sob as árvores do jardim
Saboreamos a vida antes da vida
Um pássaro pousado sobre nossos ramos
Silenciosos
Acima, o céu se abre
Este é o mundo que passa ligeiro no sopro
Nós somos o sopro
Somos sopro
Gravado na terra
Onde nossas palavras ganham vida

"Ma Mère l'Oye" (Mamãe Ganso, suíte) / Le Jardin féerique (O Jardim das Fadas) - Maurice Ravel
Accentus
Direção: Laurence Équilbey
Transcrição: Thierry Machuel
Texto: Benoît Richter
Filme: Andy Sommer
Extraído do DVD "TranscriptionS", Naïve, 2008

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

senha


Eu sou uma mulher sem nenhum mel
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
Eu vou gerar um cacto sem espinho.

- Adélia Prado in Miserere

domingo, 5 de janeiro de 2014

"o fenômeno poético é religioso em sua natureza"


Entrevistador: A senhora acredita que sua poesia perderia o sentido sem a religião? A poesia é mais oração ou mais comunhão? Acredita que pode haver um poeta ateu?

Adélia Prado: Certamente escreveria outro tipo de poesia, mas não deixaria de escrevê-la. No texto de um poeta ateu, o substrato de sua poesia é o mesmo no de um poeta crente. Porque o fenômeno poético é religioso em sua natureza. A poesia, independentemente da crença ou não crença do poeta, nos liga a um centro de significação e sentido, assim como o faz a fé religiosa. Por isso é que a poesia é tão consoladora, dá tanta alegria. Minha formação é religiosa, confesso o que creio e é impossível que nossas profundas convicções desapareçam quando escrevemos. Seria esquizofrênico. Mística e poesia são braços do mesmo rio. Deus me deu o segundo, mas a fonte é a mesma, o Espírito Divino. A despeito de si mesmo, o poeta ateu entrega o ouro em sua poesia. É simples, rigorosamente ninguém é o criador da Beleza (poesia). Ela vem, eu diria como Guimarães Rosa, da terceira margem da alma. O poeta é só o “cavalo do Santo”, queira ou não. Às vezes, somos tentados a desistir quando descobrimos que ela, a poesia, é muito melhor que seu autor. É a tentação do orgulho. Que Deus nos livre dela.

Fonte

deus é vazio

Foto: Tom Storm

"Isso a que nos referimos pelo nome de Deus é assim mesmo: um grande, enorme Vazio que contém toda a beleza do universo. Se o vaso não fosse vazio, nele não se plantariam as flores. Se o copo não fosse vazio, com ele não se beberia a água. Se a boca não fosse vazia, com ela não se comeria o fruto. Se o útero não fosse vazio, nele não cresceria a vida. Se o céu não fosse vazio, nele não voariam os pássaros, nem as nuvens, nem as pipas...

(...) Deus tem de existir. Tem beleza demais no universo, e beleza não pode ser perdida."

- Rubem Alves, "O Deus que conheço"