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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

salmo 138


Iahweh, tu me sondas e conheces:
conheces o meu sentar e o meu levantar,
De longe penetras o meu pensamento;
examinas o meu andar e o meu deitar,
meus caminhos todos são familiares a ti.

A palavra ainda não me chegou à língua,
e tu, Iahweh, já a conheces inteira.
Tu me envolves por trás e pela frente,
e sobre mim colocas tua mão.
É um saber maravilhoso, e me ultrapassa,
é alto demais: não posso atingí-lo!

Para onde ir, longe de teu sopro?
Para onde fugir, longe da tua presença?
Se subo aos céus, tu lá estás;
se me deito no Xeol, aí te encontro.

Se tomo as asas da alvorada
para habitar nos limites do mar,
mesmo lá é tua mão que me conduz,
e tua mão direita que me sustenta.

domingo, 19 de janeiro de 2014

bendita matéria


Bendita sejas tu, áspera Matéria,
gleba estéril, duro rochedo,
tu que não cedes a não ser pela violência,
e nos forças a trabalhar, se quisermos comer.

Bendita sejas tu, perigosa Matéria,
mar violento, paixão indomável,
tu que nos devoras,
caso não te acorrentemos.

Bendita sejas tu, poderosa Matéria,
Evolução irresistível,
Realidade sempre nascente,
tu que a cada momento fazes explodir
as nossas molduras,
obrigando-nos a perseguir sempre mais longe
a Verdade.

Bendita sejas tu, Matéria universal,
Duração sem limites,

Éter sem margens
– Tríplice abismo das estrelas,
dos átomos e das gerações –,
tu que transbordas e dissolves nossas
estreitas medidas,
revelando-nos as dimensões de Deus.

Bendita sejas tu, Matéria impenetrável,
tu que, estendida em todo lugar
entre nossas almas e o Mundo das essências,
nos deixas lânguidos com o desejo
de penetrar o véu sem costura dos fenômenos.

- Teilhard de Chardin, via

sábado, 18 de janeiro de 2014

é preciso saber aceitar as próprias pausas


"É preciso saber aceitar as próprias pausas. (...)

No fundo, as cartas a Deus são as únicas cartas de amor que devem ser escritas. (...) É preciso ser capaz de viver sem livros e sem nada. Sempre haverá um pedacinho de céu que se pode olhar e um espaço suficiente dentro de mim para juntar as mãos em uma oração. (...)

A minha vida tornou-se um diálogo ininterrupto contigo, meu Deus, um único grande diálogo. Às vezes, quando estou em um cantinho do campo, os meus pés plantados na sua terra, os meus olhos voltados para o teu céu, o meu rosto se inunda de lágrimas que brotam de uma emoção profunda e de gratidão. Mesmo à noite, quando, deitada no meu leito, me recolho em ti, meu Deus, lágrimas de gratidão inundam o meu rosto: e essa é a minha oração."

- Etty Hillesum, aqui

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

nossa senhora do silêncio

Escultura: José Ismael

Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos.

É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas antigas visões demoradas de paisagens outras, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio.

Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos.

Eu não sei quem tu és. Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Como não te sonhar? Como não te sonhar Senhora das Horas que passam? Madona das águas estagnadas e das algas mortas. Consoladora dos que não têm consolação, Lágrima dos que nunca choram, Hora que nunca soa. Ópio de todos os silêncios, Lira para não se tanger, Vitral de lonjura e de abandono.

Livra-me da religião, porque é suave; e da descrença porque é forte. Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada, nem te ergo ante mim como santa. Só tu, sol que não brilhas, alumias as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas. Posso amar-te e também adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.

Sê a Noite Total e que todo eu me perca e me esqueça em ti, e que os meus sonhos brilhem, estrelas, no teu corpo de distância e negação... Seja eu as dobras do teu manto, as jóias da tua tiara, e o ouro outro dos anéis dos teus dedos.

Realizadora dos absurdos. Que o teu silêncio me embale, que o teu mero-ser me acaricie e me amacie e me conforte Anjo da Guarda dos abandonados. Tu não és mulher. Nem mesmo dentro de mim evocas qualquer coisa que eu possa sentir feminina. É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Mas tu, na tua vaga essência, não és nada. Não tens realidade, nem mesmo uma realidade só tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto. Ocupas o intervalo dos meus pensamentos. Por isso eu não te penso nem te sinto. Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas noturnas do meu desassossego, no meu saber que és lua.

- Fernando Pessoa (via)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

estado de graça


Barbara Hendricks (soprano) e Roland Pöntinen (piano) na gravação da Ave Maria (Ellens Gesang III) de Franz Schubert. Estocolmo, novembro de 2007.

domingo, 12 de janeiro de 2014

a propósito do pai nosso (2)


Dou continuidade à proposta iniciada no domingo passado de publicar, em 5 partes, a reflexão de Simone Weil sobre a oração do Pai Nosso. Para meditar, orar e, espero, favorecer o contato com o sagrado, seja qual for a sua crença.

Para acessar o texto completo, clique na tag "pai nosso".

Seja feita a vossa vontade
Nós nunca estamos absoluta e infalivelmente certos da vontade de Deus, a não ser em relação ao passado. Todos os acontecimentos já sucedidos, quaisquer tenham sido, estão de acordo com a vontade do pai Todo-Poderoso. Isto está implícito na noção de onipotência. O futuro também, tal como venha a ser, uma vez consumado, o terá sido de acordo com a vontade de Deus. Não podemos acrescentar nem subtrair nada a esta conformidade. Então, após um apelo do desejo (venha a nós o vosso reino) em direção ao possível, uma vez mais pedimos aquilo que é (seja feita a vossa vontade). Mas não mais uma realidade eterna como é a santidade do Verbo. Aqui o objeto de nossa demanda é aquilo que se produz no tempo. Mas pedimos a conformidade infalível e eterna daquilo que se produz no tempo com a vontade divina. Depois de ter, pelo primeiro pedido, arrancado o desejo ao tempo para aplicá-lo ao eterno, e tê-lo assim transformado, nós retomamos este desejo, tornado ele próprio, de certa forma eterno, para aplicá-lo de novo ao tempo. Então nosso desejo rasga o tempo para encontrar atrás a eternidade. É aquilo que se passa quando sabemos fazer de todo acontecimento sucedido, qualquer tenha sido ele, um objeto do desejo. Eis aí algo totalmente diferente da resignação: a palavra aceitação mesma é muito fraca. É preciso desejar que tudo que aconteceu tenha sucedido, e nada além disto. Não porque o que tenha acontecido seja bom aos nossos olhos, mas porque Deus o permitiu, e porque a obediência do curso de acontecimentos a Deus é em si própria um bem absoluto.

Assim na terra como no céu
Esta associação de nosso desejo à vontade toda-poderosa de Deus deve estender-se às coisas espirituais. Nossas ascensões e quedas espirituais e aquelas dos seres que amamos mantêm um relacionamento com o outro mundo, mas são também acontecimentos que se produzem aqui embaixo, no tempo. Neste sentido, cada detalhe neste imenso mar de acontecimentos está articulado com o todo de um modo conforme à vontade de Deus. Posto que nossas faltas anteriores já foram cometidas e nós devemos desejar que elas tenham sido cometidas. Devemos estender este desejo ao futuro, considerando o dia em que ele tenha se convertido em passado. Esta é uma correção necessária à demanda de que o reino de Deus venha a nós. Devemos abandonar todos os desejos por aquele da vida eterna, mas precisamos desejar a vida eterna, ela própria, com desprendimento. O apego à salvação é ainda mais perigoso que os outros. É preciso pensar na vida eterna como pensamos na água quando mortos de sede, e ao mesmo tempo desejar para si e para os seres queridos a privação eterna desta água, mais do que estar plenos dela contra a vontade de Deus, se tal coisa fosse concebível. As três demandas precedentes estão relacionadas às três Pessoas da Trindade, o Filho, o Espírito e o Pai, e também às três partes do tempo: o presente, o futuro e o passado. As três demandas seguintes se referem mais diretamente às três partes do tempo em outra ordem, presente, passado, futuro.

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Texto original:

WEIL, Simone. À propos du "Nôtre Père", In Attente de Dieu. Paris: Flamarion, 1996. Tradução de Elisa Cintra.

Tradução publicada originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

sábado, 11 de janeiro de 2014

prece



Clarice Lispector, sempre visceral:

"Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."

Celebremos o mistério. :-)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

instruções para os dias ruins


Os dias ruins existem mesmo. Calma. Relaxe os punhos. Devagarzinho, vá abrindo as suas mãos. Solte. Confie. Saiba que agora é só um momento - e, se hoje não podia ser pior, entenda que amanhã este dia já terá terminado. Seja gentil. Aceite as mãos estendidas para você, se oferecendo para tirá-lo deste lugar de onde você não está conseguindo escapar. Seja diligente. Esfregue o céu cinzento até limpá-lo. Perceba que cada nuvem escura não passa de uma cortina de fumaça que nos deixa cegos para a verdade - e a verdade é que, quer os vejamos ou não, o sol e a lua continuam no mesmo lugar, e a luz continua existindo... sempre.

Seja objetivo. Apesar da tentação de dizer "está tudo bem, eu estou bem", seja honesto. Diga como está se sentindo sem medo nem culpa, sem remorso nem complicação. Seja lúcido na sua explicação, seja cristalino em sua exposição. Se lhe passar pela cabeça, por um segundo que seja, que ninguém mais sabe o que você está passando, aceite o fato de que você está enganado: todo mundo é assaltado de vez em quando pela respiração ofegante do desespero; a dor faz parte da condição humana, e só esse fato basta para torná-lo membro de uma multidão.

Nós, azarões famintos; nós, que acordamos ao nascer do sol; nós, que driblamos as dificuldades - nós vamos nos ancorar em nossa própria serenidade. Vamos fincar pé no chão e nos preparar para a batalha. A vida virá te enfrentar armada com tempos difíceis e escolhas penosas, mas sua voz é sua arma e suas ideias, munição. Não há reforços sobrando; não perca de vista que, assim que este instante passar, deixará de ser presente para tornar-se passado. Portanto, seja um espelho e reflita sua própria imagem, e mantenha acesa a lembrança de quando você achava que isto tudo seria difícil demais e você jamais conseguiria. Lembre-se de quando você poderia ter desistido - mas escolheu continuar.

Disponha-se a perdoar. Viver com o fardo da raiva não é viver. Manter seu foco na ira só vai alienar você de suas reais necessidades. Tanto o amor quanto o ódio são feras selvagens, e a que você alimentar é que vai crescer. Seja persistente. Seja a graminha que brota na fenda do piso - e é linda simplesmente por não saber que não deveria crescer ali. Seja resoluto. Declare o que para você é a verdade de uma maneira que traduza a firmeza com que você a vive.

Se você estiver em um bom dia, tenha consideração. Um simples sorriso pode ser o kit de primeiros socorros de que alguém mais precisa. Se você acreditar, com total sinceridade, que está fazendo tudo o que está ao seu alcance - faça mais.

Os dias ruins existem - aqueles dias em que o mundo pesa nos seus ombros por tanto tempo que você começa a procurar alguma saída fácil. Há os momentos em que a sede de alegria parece implacável. Quando você se pegar fingindo que está tudo bem, quando evidentemente não está, dê uma olhada no seu ponto cego - e veja que o amor ainda está ali. Seja paciente. Todo pesadelo tem um começo, mas todo mau dia tem um fim. Ignore o que os outros disseram de você. Eu digo que você é meu amigo. Ajude-nos compreender a urgência da sua crise. O silêncio só gera mais silêncio.

Portanto, fale e se faça ouvir. Uma palavra de cada vez, se expresse, diga o que está acontecendo na sua vida. Se ninguém prestar atenção, fale mais alto. Faça barulho. Fique de pé e se abra. A esperança, nesses casos, não basta. Você vai precisar de alguém em quem se escorar. Na improvável eventualidade de você não ter ninguém, olhe bem. Todos temos o dom da escuta. Os surdos o ouvirão com seus olhos. Os cegos o verão com as mãos. Exponha seu coração nas bancas de jornais, permita que leiam suas manchetes. Admita que os dias ruins existem, que existem as noites impossíveis. Ouça os relatos de quem já esteve lá, mas conseguiu voltar. Estes lhe dirão que você pode erguer montanhas de sofrimento, pode ir embora, pode sumir, pode até vestir-se de luto e tristeza - mas, quando chegar amanhã, troque de roupa.

Todo mundo conhece a dor, mas ninguém deve carregá-la para sempre. Ninguém deve se aferrar a ela. Assim, tenha a certeza de que, qualquer que seja a dor de agora, ela logo ficará para trás. E, quando alguém perguntar se está tudo bem, saiba que, para alguns de nós, é a única maneira que conhecemos de dizer:

"Calma. Relaxe os punhos. Devagarzinho, vá abrindo as suas mãos. Solte..."

- Shane Koyczan, via

Vídeo compílado por Jon Goodgion com imagens do documentário "Life in a Day", de Kevin Macdonald.

domingo, 5 de janeiro de 2014

a propósito do pai nosso (1)


Publico aqui, a partir de hoje e pelos próximos 4 domingos, a bela reflexão de Simone Weil sobre a oração do Pai Nosso. Para meditar, orar e, espero, aprofundar o contato com o sagrado, seja qual for a sua crença.

Para acessar o texto completo, clique na tag "pai nosso".

Pai-nosso que estais nos céus
Ele é nosso Pai, não há nada de real em nós que não proceda dele. Nós pertencemos a ele. Ele nos ama, posto que ama a si próprio e que pertencemos a ele. No entanto é o Pai que está nos céus. E não em outra parte. Se acreditássemos ter um Pai aqui em baixo, seria um falso Deus (um ídolo ou ideal ). Não podemos dar um único passo em direção a Deus. Pois não sabemos caminhar verticalmente. Não podemos dirigir a ele a não ser o nosso olhar. A questão, portanto não é sair em sua busca, mas apenas mudar a direção do olhar. É tarefa dele, vir atrás de nós. É preciso alegrar-se por saber que ele está infinitamente além de nosso alcance. Sabemos então que o mal em nós, mesmo se puder nele submergir todo o nosso ser, não poderá de maneira alguma manchar a pureza, a felicidade e a perfeição divinas.

Santificado seja o teu Nome
Somente Deus tem o poder de se nomear a si próprio. O seu nome é impronunciável para os lábios humanos. O nome dele é a Palavra. É o Verbo. (É o Logos). O nome dos seres em geral é uma ponte entre o espírito humano e aquele ser, o único caminho por onde o espírito humano pode captar alguma coisa daquele ser quando está ausente. Deus está ausente, está nos céus. Seu nome é para o homem a única possibilidade de ter acesso a ele. É o Mediador. (É Cristo, o Amor Misericordioso). O homem tem acesso ao nome, embora ele também seja transcendente. Este nome – é o Logos eterno que brilha na beleza e na ordem do mundo e na luz interior da alma humana. Este nome é santidade, ela própria, não há nenhuma santidade fora dele, não há nada nele a ser santificado. Quando imploramos a sua santificação, imploramos por aquilo que é eternamente com uma plenitude de realidade à qual não se pode acrescentar ou retirar nem uma ínfima parcela. Invocar aquilo que é, que é real, infalível, eternamente, de uma maneira independente de nossa vontade, esta é a perfeição da demanda. Não podemos impedir-nos de desejar, nós somos desejo; mas este desejo que nos aprisiona ao imaginário, ao tempo ao egoísmo, nós podemos, se o fizermos passar todo inteiro através desta demanda, fazer dele uma alavanca que nos arranca do imaginário para o real, do tempo para a eternidade e para fora de toda prisão do eu.

Venha a nós o vosso reino
Trata-se agora de algo que deve vir (advir), que ainda não está lá. O reino de Deus é o Espírito Santo, preenchendo completamente toda a alma das criaturas inteligentes. Para nós, só é possível invocá-lo. É preciso não deter o pensamento em um modo particular de invocá-lo. Que pensar nele seja um apelo e um grito. Da mesma maneira que quando estamos no limite da sede, quando estamos doentes de sede, não representamos mais o ato de beber referido a nós próprios, nem mesmo o ato de beber em geral. Representamos apenas a água, a água em si mesma, mas esta imagem da água é como um grito de todo o ser.

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Texto original:

WEIL, Simone. À propos du "Nôtre Père", In Attente de Dieu. Paris: Flamarion, 1996. Tradução de Elisa Cintra.

Tradução publicada originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

prece de ano-novo


Penetra a aurora.

Corta as amarras.
Desembaraça os fios.
Rompe os grilhões
que atam e prendem.

Caminha, livre
como Nelson Mandela liberto da prisão,
adentrando a possibilidade
de um caminho novo
onde os inimigos sejam surpreendidos pela Graça.

A vida, em sua dor e delícia,
te conduziu até aqui.
Tudo é aprendizado.
Desvencilha-te do passado.
Desperta para os sinais, para as maravilhas.
Percebe os guias sábios, os marcos de pedra
que indicam a direção e te resguardam os caminhos.

Encontra tuas almas gêmeas, teus espaços sagrados,*
aquelas pessoas e lugares que alimentam tua alma.
Trata de mantê-los perto.

Reconhece a esperança de ressurreição a cada novo dia,
para mais uma vez começar
e adentrar a vida ainda por viver;
para fazer a paz,
ser puro de espírito,
caminhar com deferência,
amante da misericórdia e da bondade,
e praticar o bem que bem sabes fazer.

Vê com olhos novos
o caminho que sempre foi,
o que nos conduz ao nosso lugar nesta terra
— aquele que nos leva para casa.

- Christy Caine

[*No original, Anam Cara (expressão celta que significa “amigo de alma”) e Caol Ait (expressão celta que significa “lugar tênue”— onde a distância entre o divino e o humano é tão tênue que facilita o encontro espiritual).]

Fonte