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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

mar


Aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar

O mar
não parou
pra ser olhado

Foi mar
pra tudo quanto é lado

- Paulo Leminski, via

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

fragilidade


Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
Feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.

- Carlos Drummond de Andrade, via

domingo, 19 de janeiro de 2014

bendita matéria


Bendita sejas tu, áspera Matéria,
gleba estéril, duro rochedo,
tu que não cedes a não ser pela violência,
e nos forças a trabalhar, se quisermos comer.

Bendita sejas tu, perigosa Matéria,
mar violento, paixão indomável,
tu que nos devoras,
caso não te acorrentemos.

Bendita sejas tu, poderosa Matéria,
Evolução irresistível,
Realidade sempre nascente,
tu que a cada momento fazes explodir
as nossas molduras,
obrigando-nos a perseguir sempre mais longe
a Verdade.

Bendita sejas tu, Matéria universal,
Duração sem limites,

Éter sem margens
– Tríplice abismo das estrelas,
dos átomos e das gerações –,
tu que transbordas e dissolves nossas
estreitas medidas,
revelando-nos as dimensões de Deus.

Bendita sejas tu, Matéria impenetrável,
tu que, estendida em todo lugar
entre nossas almas e o Mundo das essências,
nos deixas lânguidos com o desejo
de penetrar o véu sem costura dos fenômenos.

- Teilhard de Chardin, via

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

pedra


Na pedra recolho
o sol na pedra quente, imóvel.
E o pródigo calor pródigo,
imóvel, ao corpo que se abeira
desse lago plácido.
Sem turbulência a alma aqueço
ao sol e vai-se este calor
à alma que se abeira, imóvel.
É um signo simples, cadência
de água, incandescência e sol
de quem só se encontra
em plenitude ou ânsia
na pedra quente e só.

- Dora Ferreira da Silva , via

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

creio na minha fome


Creio na minha fome
na demanda de todas
as fomes
e em seus atributos
de espanto e loucura

creio na substância
infinita
e em seus possíveis
modos transparentes
e fugazes

creio no corpo feminino
nas formas nuas
que me salvam
do silêncio

creio nos pássaros
que voam
bêbados de ocaso
creio nas rochas
que fundam
minha esquiva paisagem

creio nos horizontes
do nada
em que deus trava
para sempre perdido
o mais rude combate

creio no universo
abrasado
de paixão e delírio

- Marco Lucchesi, via  

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

canção de alta noite


Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.

- Cecília Meirelles

Presente de Lula Ramires :-)

tudo, todos e o todo


Somos feitos de barro e de fogo
e por isso somos o desejo e o amor.
Fomos feitos de terra e de água
e assim somos eternos como a vida
e somos passageiros como a flor.
Somos a luz, a sombra, o clarão, a escuridão
a memória de deus, a história e a poesia.
Somos o espaço e o tempo, a casa e a janela
e a noite e o dia, e o sol e o céu e o chão.
Somos o silêncio e o som da vida.
O estudo, a lembrança e o esquecimento.
Somos o medo e o abandono.
A espera somos nós e somos a esperança.
Pois não somos mais e nem menos do que tudo.
Somos o perene e o momento, a pedra e o vento
a energia e a paz, a vida criada e o criador.
Somos o mundo que sente, e irmãos da vida
somos a aventura de ser vida e sentimento.
E assim em cada ave que voa há nossa alma
e em cada ave que morre, a nossa dor.

- Carlos Rodrigues Brandão

Via

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

invenção de orfeu


Qualquer que seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios.
Porém se não surgir o que sonhamos
e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.
Feliz de quem com cânticos se esconde
julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.
E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas.

- Jorge de Lima

Invenção de Orfeu. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 53 – 26ª parte do Primeiro Canto (via)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

busco teu nome

Sufis persas do Curdistão

Assim,
entre as rochas,
sobre os montes,
busco Teu nome.
Busco Teu nome
como o buscam os pássaros
voando pelos céus,
os peixes nadando pelos mares,
os antílopes correndo pelas planícies.
Como o homem que ama e deseja,
busco Teu nome: Deus…

Amo Teu nome.
canto Teus louvores,
agradeço,
enumero e digo Teus atributos.
Amo Teu nome.

Conheci o mundo e as coisas.
Aprendi.
E, apesar de tudo,
não conheço nem o mundo nem as coisas.

Minha cabeça está descoberta,
descalços os meus pés.
A tudo renuncio;
sigo, porém, buscando o Teu nome…

Com a voz de todos aqueles
que Te amam e Te chamam:
Amo Teu nome.

- Yunus Emre, via

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

inspiração

Liniers

"A inspiração, em todas as formas de arte, tem um toque de magia porque a criação absolutamente inexplicável. (...) Suponho que ela emerge do mais profundo 'eu' de uma pessoa, do mais profundo inconsciente individual, coletivo e cósmico."

- Clarice Lispector

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

o jardim das fadas


Le jardin féérique

Jardin paisible loin dans nos mémoires
Là où la peau nue cache un feuillage
Là où la sève monte au visage
Source nous sommes la source
Patients dans le temps de la nuit
Sans bruit veiller les feuilles et les pierres
Rester immobile allongé sur la terre
Simplement comme feraient le vent ou le courant
Lentement
Nous marchons sous les arbres du jardin
Nous goûtons à la vie avant la vie
Un oiseau posé sur nos branches
Silencieux
Au-dessus le ciel s‘ouvre
Voici le monde qui passe léger dans le souffle
Nous sommes le souffle
Nous sommes souffle
Gravé sur la terre
Là où nos mots prennent vie

O jardim das fadas

Jardim sereno, longe em nossas memórias
Onde a pele nua encobre a folhagem
Onde a seiva sobe à face
Fonte, nós somos a fonte
Pacientes no tempo da noite
Sem ruído, velamos as folhas e as pedras
Permanecemos imóveis, estendidos sobre a terra
Simplesmente, como fariam o vento ou a corrente
Lentamente
Caminhamos sob as árvores do jardim
Saboreamos a vida antes da vida
Um pássaro pousado sobre nossos ramos
Silenciosos
Acima, o céu se abre
Este é o mundo que passa ligeiro no sopro
Nós somos o sopro
Somos sopro
Gravado na terra
Onde nossas palavras ganham vida

"Ma Mère l'Oye" (Mamãe Ganso, suíte) / Le Jardin féerique (O Jardim das Fadas) - Maurice Ravel
Accentus
Direção: Laurence Équilbey
Transcrição: Thierry Machuel
Texto: Benoît Richter
Filme: Andy Sommer
Extraído do DVD "TranscriptionS", Naïve, 2008

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

ciência da noite


As coisas assim
a gente mesmo não pega
nem abarca.
Cabem é no brilho da noite.
Aragem do sagrado.
Absolutas estrelas!

- Guimarães Rosa, via

senha


Eu sou uma mulher sem nenhum mel
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
Eu vou gerar um cacto sem espinho.

- Adélia Prado in Miserere

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

não há silêncio bastante


Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.

- Hilda Hilst

domingo, 5 de janeiro de 2014

"o fenômeno poético é religioso em sua natureza"


Entrevistador: A senhora acredita que sua poesia perderia o sentido sem a religião? A poesia é mais oração ou mais comunhão? Acredita que pode haver um poeta ateu?

Adélia Prado: Certamente escreveria outro tipo de poesia, mas não deixaria de escrevê-la. No texto de um poeta ateu, o substrato de sua poesia é o mesmo no de um poeta crente. Porque o fenômeno poético é religioso em sua natureza. A poesia, independentemente da crença ou não crença do poeta, nos liga a um centro de significação e sentido, assim como o faz a fé religiosa. Por isso é que a poesia é tão consoladora, dá tanta alegria. Minha formação é religiosa, confesso o que creio e é impossível que nossas profundas convicções desapareçam quando escrevemos. Seria esquizofrênico. Mística e poesia são braços do mesmo rio. Deus me deu o segundo, mas a fonte é a mesma, o Espírito Divino. A despeito de si mesmo, o poeta ateu entrega o ouro em sua poesia. É simples, rigorosamente ninguém é o criador da Beleza (poesia). Ela vem, eu diria como Guimarães Rosa, da terceira margem da alma. O poeta é só o “cavalo do Santo”, queira ou não. Às vezes, somos tentados a desistir quando descobrimos que ela, a poesia, é muito melhor que seu autor. É a tentação do orgulho. Que Deus nos livre dela.

Fonte

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

prece de ano-novo


Penetra a aurora.

Corta as amarras.
Desembaraça os fios.
Rompe os grilhões
que atam e prendem.

Caminha, livre
como Nelson Mandela liberto da prisão,
adentrando a possibilidade
de um caminho novo
onde os inimigos sejam surpreendidos pela Graça.

A vida, em sua dor e delícia,
te conduziu até aqui.
Tudo é aprendizado.
Desvencilha-te do passado.
Desperta para os sinais, para as maravilhas.
Percebe os guias sábios, os marcos de pedra
que indicam a direção e te resguardam os caminhos.

Encontra tuas almas gêmeas, teus espaços sagrados,*
aquelas pessoas e lugares que alimentam tua alma.
Trata de mantê-los perto.

Reconhece a esperança de ressurreição a cada novo dia,
para mais uma vez começar
e adentrar a vida ainda por viver;
para fazer a paz,
ser puro de espírito,
caminhar com deferência,
amante da misericórdia e da bondade,
e praticar o bem que bem sabes fazer.

Vê com olhos novos
o caminho que sempre foi,
o que nos conduz ao nosso lugar nesta terra
— aquele que nos leva para casa.

- Christy Caine

[*No original, Anam Cara (expressão celta que significa “amigo de alma”) e Caol Ait (expressão celta que significa “lugar tênue”— onde a distância entre o divino e o humano é tão tênue que facilita o encontro espiritual).]

Fonte