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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

murar o medo

Bansky

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já eram para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos.

Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incômodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivos se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples fato de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não tem medo da fome, tem medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

(Mia Couto, aqui)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

a revolução, fora e dentro

Scarpini

Amanhã você vai sair — ou voltar — às ruas e fazer a revolução.

Sem medo, sem máscara, vai dizer “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” a todos os conhecidos e desconhecidos que passarem por você. No elevador, no estacionamento, no ônibus, na fila da padaria. E se ninguém responder, não importa. Você vai manifestar um sorriso largo como uma avenida e seguir em frente.

Porque é para frente que se anda.

No trânsito, vai dar passagem a todos os outros carros assim que vir uma seta piscar, indiferente às buzinas nervosas de quem vier atrás. E quando alguém fizer a mesma gentileza por você, não vai esquecer de acenar em puro e simples agradecimento.

Ao ligar o ônibus coletivo com o qual circula pela cidade todos os dias, vai se lembrar de que está conduzindo pessoas e não caixas de verdura. E de que os milhares de veículos lá fora não são seus adversários em uma corrida para lugar nenhum.

Vai começar todo e qualquer pedido com “por favor” e concluí-lo com “obrigado”.

Quando reunir seu batalhão no quartel, em vez de gritar “ordinário, marche”, vai orientá-lo a ler a Constituição Brasileira e qualquer um dos livros de Carlos Drummond de Andrade. Para que seus soldados percebam, do alto de seus coturnos, o quanto as coisas às vezes não fazem mesmo sentido. E descubram o quanto a autoridade que lhes foi atribuída pode ser usada não para reprimir e subjugar, mas para fazer da vida uma extraordinária marcha para frente.

Porque é para frente que se marcha.

No hospital público em que você, doutor ou doutora, dá plantão de madrugada, vai atender cada paciente com a calma, a seriedade, a competência e o respeito devidos a qualquer ser humano. E vai sentir vergonha de todas as vezes em que se dirigiu a essas pessoas como se você fosse um ser superior vestindo branco e elas não passassem de malditas desvalidas atrás de uma injeção “de graça”.

Nas cerimônias religiosas, vai retribuir a confiança de quem o chama de padre, pastor ou pai de santo não apenas com uma benção, um sermão ou um passe, mas pedindo às pessoas que façam uma oração para aqueles que protestam e para aqueles contra quem se protesta. E que nessa oração, o único pedido seja a compreensão e a clareza, para que todos saibam realmente o que estão fazendo, contra quem, contra o quê e como estão se manifestando.
Nos veículos de comunicação que você dirige, vai determinar a seus repórteres, redatores, editores e afins que se concentrem no factual, que ouçam, analisem e publiquem todas as visões possíveis de cada fato. E que deixem os leitores, ouvintes e telespectadores concluírem como bem entenderem.

Nas escolas e nas faculdades, vai ensinar seus alunos a ver e pensar política de outro modo, para além dos discursos e dos partidos, com profundidade, amplitude e perspectiva. Com inteligência, liberdade e espírito crítico.

Nas redes sociais, antes de curtir e compartilhar qualquer post sobre qualquer assunto, você vai pensar. E vai pensar de novo, até se certificar de que realmente acredita naquilo.

E quando alguém próximo a você esbravejar palavras de ódio e apoio à violência — seja da parte de quem se manifesta depredando, seja do lado de quem defende agredindo — você não vai discutir. Vai respirar fundo, pensar consigo “let it be” e seguir em frente. Porque há vários lados nessa história, mas nenhum deles é “o adversário”. E você está em todos eles.

Você é o mínimo de inteligência que resiste em cada homem e cada mulher que ainda respiram neste mundo, brutalizados e amortecidos pela doença da normalidade que torna tudo banal — as mortes, os estupros, a violência doméstica, a roubalheira nos cargos públicos, o corrupto e o corruptor, o ódio e a maldade.

Amanhã você vai sair às ruas e fazer a revolução. E se ninguém mais aderir, não importa. Você vai manifestar um sorriso largo como uma avenida e seguir em frente.

Porque é para frente que se anda.

E a revolução “lá fora” só começa depois de uma outra, aquela que acontece “aqui dentro”.

- André J. Gomes, Revista Bula

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

volatilidade: interioridade e alteridade no mundo de hoje

Foto: Kenji Aoki

(...) Relações voláteis geram identidades igualmente voláteis. Incertas. Mutantes. Formam-se a partir delas personalidades auto-referenciadas, de uma autonomia não livre, mas compulsiva. São além disso identidades temporárias, que podem ser apagadas e substituídas por outros rótulos. A memória, atrofiada pelo ritmo da vida líquida pós-moderna, ensina que esquecer é o melhor, a fim de poder reescrever na lousa apagada uma nova identidade. Hoje me auto compreendo assim, amanhã já será diferente. São igualmente identidades plurais, abertas, sem escolhas ou decisões que empenhem a vida.

Os vínculos admitidos são aqueles que cabem nas redes, como Facebook, Orkut, etc. Ali não se depende de relações afetivas que pesam e tiram mobilidade. E quando a comunicação não mais interessar, pode-se cortá-la com a ligeireza de um click. E novamente mergulhar na mais profunda solidão e vazio de sentido a que este estado de coisas condena o sujeito pós-moderno. A única relação que não o ameaça é aquela que ele estabelece com o seu eu, convertido no mortal espelho de Narciso. Voltar-se para si mesmo é a única instancia dotada de certa permanência em um mundo complexo, incerto e inevitável.

A interioridade humana hoje vai se convertendo em um novo paradigma emergente. Trata-se, sem dúvida, de uma dimensão constitutiva do ser humano. O que se dá, no entanto, de fato, é um estreitamento da interioridade, que se vive em grande medida pelo fluxo sempre em movimento das sensações que absorvem, não favorecendo o encontro profundo com o próprio eu, e por conseguinte tampouco com o outro.

Por um lado, trata-se de um sintoma extremamente positivo, uma vez que denota o advento da já iniciada recuperação do espiritual como dimensão de importância iniludível na vida humana. Os seres humanos de hoje experimentam, de novo, aquilo que Santo Agostinho escreveu em seu memorável livro das Confissões: “Eu não amava ainda e amava amar: buscava o que poderia amar, amando amar”.

Por outro lado, esse voltar-se para dentro de si mesmo pode incluir e efetivamente inclui a tentação de esconder-se em si mesmo e terminar não conseguindo daí sair . E a conseqüência é o estreitamento da própria interioridade que tem como resultado o fechamento ao outro. E uma terrível e desesperadora solidão.

(...) O vazio que isto gera já é bastante para denunciar que o ser humano é constituído pelo primado da alteridade. Apenas nos olhos do outro vejo quem sou e descubro minha identidade que já não pode dispensar a diferença do outro para autocompreender-se. A intimidade do sujeito humano só existe habitada pela presença de um Mistério.

A volta à interioridade como paradigma não pretende ser, portanto, um ensimesmamento do eu. Mas sim a condição indispensável para o reconhecimento da Presença que habita o humano. E esse reconhecimento, por sua vez, exigirá da pessoa humana um êxodo, uma saída de si, em direção ao outro, humano e divino, em relação com o qual é imperioso entrar para re-encontrar-se e re-conciliar-se com sua identidade perdida. A volatilidade é inimiga desse fundamental encontro marcado desde toda a eternidade.

- Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio | Publicado originalmente no site do Amai-vos

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

uma política dos afetos


A verdadeira tarefa política é a reconstrução de nossos afetos. Inebriados por discussões a respeito de sistemas de normas e instituições, demoramos muito tempo para perceber que a política é, acima de tudo, uma questão de mobilização de afetos. Discursos circulam e levam os corpos a sentirem de uma determinada forma, a temerem certas situações.

A política é a arte de afetar os corpos e de levá-los a impulsionar certas ações. Devido a isso, nunca entenderemos nada das dinâmicas dos fatos políticos se esquecermos sua dimensão profundamente afetiva.

Por exemplo, não é difícil perceber como, nas últimas décadas, uma máquina de medo e ressentimento foi colocada em funcionamento.

Esses são, há tempos, os principais afetos que circulam no campo político. Medo do tempo que não conhecemos e que pode ser diferente do passado e do presente. Medo de ficar longe demais da segurança da "nossa terra", de ser assaltado, de ter sua propriedade violada, da morte violenta. Mas, principalmente, um ressentimento travestido de pessimismo prudente a respeito dos acontecimentos e da errância necessária à toda procura.

A política baseada no ressentimento é, de fato, algo a ser pensado. Talvez possamos dizer que, em política, o ressentimento é sempre o sentimento mobilizado contra a errância.

Quando um acontecimento ocorre, muitas vezes ele não instaura imediatamente uma nova ordem. Só em situações muito amadurecidas, e por isso mesmo muito raras, vemos essa passagem imediata de uma ordem a outra. Normalmente, acontecimentos são aquilo que instaura uma nova errância, com seus erros, suas perdas, seu tempo confuso.

Esse tempo confuso é, em certas situações, onde acontecimentos ocorrem "cedo demais", praticamente inevitáveis. Contra ele, o ressentimento sempre dirá: melhor que nada tivesse ocorrido, melhor ter ficado na situação passada, por mais que ela fosse insatisfatória, ou seja, vamos dar um jeito de voltar à antiga morada, mesmo que ela esteja em ruínas. Basta ver o que hoje lemos a respeito das revoltas no mundo árabe.

No entanto, esse tempo confuso produzirá sua própria superação, por mais que ela demore, por mais que refluxos ocorram, mas à condição de produzirmos novos afetos.

Nesses momentos, cria-se uma divisão entre os que se voltam aos velhos afetos de sempre e aqueles capazes de adquirir uma nova confiança, uma nova força, mesmo quando o céu é turvo. Pois eles sabem que nunca haverá nova política com os velhos sentimentos de sempre.

- Vladimir Safatle

Fonte

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

instruções para os dias ruins


Os dias ruins existem mesmo. Calma. Relaxe os punhos. Devagarzinho, vá abrindo as suas mãos. Solte. Confie. Saiba que agora é só um momento - e, se hoje não podia ser pior, entenda que amanhã este dia já terá terminado. Seja gentil. Aceite as mãos estendidas para você, se oferecendo para tirá-lo deste lugar de onde você não está conseguindo escapar. Seja diligente. Esfregue o céu cinzento até limpá-lo. Perceba que cada nuvem escura não passa de uma cortina de fumaça que nos deixa cegos para a verdade - e a verdade é que, quer os vejamos ou não, o sol e a lua continuam no mesmo lugar, e a luz continua existindo... sempre.

Seja objetivo. Apesar da tentação de dizer "está tudo bem, eu estou bem", seja honesto. Diga como está se sentindo sem medo nem culpa, sem remorso nem complicação. Seja lúcido na sua explicação, seja cristalino em sua exposição. Se lhe passar pela cabeça, por um segundo que seja, que ninguém mais sabe o que você está passando, aceite o fato de que você está enganado: todo mundo é assaltado de vez em quando pela respiração ofegante do desespero; a dor faz parte da condição humana, e só esse fato basta para torná-lo membro de uma multidão.

Nós, azarões famintos; nós, que acordamos ao nascer do sol; nós, que driblamos as dificuldades - nós vamos nos ancorar em nossa própria serenidade. Vamos fincar pé no chão e nos preparar para a batalha. A vida virá te enfrentar armada com tempos difíceis e escolhas penosas, mas sua voz é sua arma e suas ideias, munição. Não há reforços sobrando; não perca de vista que, assim que este instante passar, deixará de ser presente para tornar-se passado. Portanto, seja um espelho e reflita sua própria imagem, e mantenha acesa a lembrança de quando você achava que isto tudo seria difícil demais e você jamais conseguiria. Lembre-se de quando você poderia ter desistido - mas escolheu continuar.

Disponha-se a perdoar. Viver com o fardo da raiva não é viver. Manter seu foco na ira só vai alienar você de suas reais necessidades. Tanto o amor quanto o ódio são feras selvagens, e a que você alimentar é que vai crescer. Seja persistente. Seja a graminha que brota na fenda do piso - e é linda simplesmente por não saber que não deveria crescer ali. Seja resoluto. Declare o que para você é a verdade de uma maneira que traduza a firmeza com que você a vive.

Se você estiver em um bom dia, tenha consideração. Um simples sorriso pode ser o kit de primeiros socorros de que alguém mais precisa. Se você acreditar, com total sinceridade, que está fazendo tudo o que está ao seu alcance - faça mais.

Os dias ruins existem - aqueles dias em que o mundo pesa nos seus ombros por tanto tempo que você começa a procurar alguma saída fácil. Há os momentos em que a sede de alegria parece implacável. Quando você se pegar fingindo que está tudo bem, quando evidentemente não está, dê uma olhada no seu ponto cego - e veja que o amor ainda está ali. Seja paciente. Todo pesadelo tem um começo, mas todo mau dia tem um fim. Ignore o que os outros disseram de você. Eu digo que você é meu amigo. Ajude-nos compreender a urgência da sua crise. O silêncio só gera mais silêncio.

Portanto, fale e se faça ouvir. Uma palavra de cada vez, se expresse, diga o que está acontecendo na sua vida. Se ninguém prestar atenção, fale mais alto. Faça barulho. Fique de pé e se abra. A esperança, nesses casos, não basta. Você vai precisar de alguém em quem se escorar. Na improvável eventualidade de você não ter ninguém, olhe bem. Todos temos o dom da escuta. Os surdos o ouvirão com seus olhos. Os cegos o verão com as mãos. Exponha seu coração nas bancas de jornais, permita que leiam suas manchetes. Admita que os dias ruins existem, que existem as noites impossíveis. Ouça os relatos de quem já esteve lá, mas conseguiu voltar. Estes lhe dirão que você pode erguer montanhas de sofrimento, pode ir embora, pode sumir, pode até vestir-se de luto e tristeza - mas, quando chegar amanhã, troque de roupa.

Todo mundo conhece a dor, mas ninguém deve carregá-la para sempre. Ninguém deve se aferrar a ela. Assim, tenha a certeza de que, qualquer que seja a dor de agora, ela logo ficará para trás. E, quando alguém perguntar se está tudo bem, saiba que, para alguns de nós, é a única maneira que conhecemos de dizer:

"Calma. Relaxe os punhos. Devagarzinho, vá abrindo as suas mãos. Solte..."

- Shane Koyczan, via

Vídeo compílado por Jon Goodgion com imagens do documentário "Life in a Day", de Kevin Macdonald.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

o perigo de uma história única


“É fundamental que cada um possa falar por si, se apropriar da própria voz, e contar sua própria história. (...) ‘Poder’ é a capacidade não só de contar a história de alguém, mas de fazer dela a história definitiva daquela pessoa. (...) Todas essas histórias fazem de mim quem eu sou; mas insistir somente nas histórias negativas seria achatar a minha experiência e negligenciar as muitas outras histórias que me formaram. A história única cria estereótipos. E o problema dos estereótipos não é que eles sejam mentira, mas o fato de que são incompletos. (...) A consequência da história única é esta: priva as pessoas da sua dignidade. Torna difícil o reconhecimento da nossa humanidade em comum.”

(Chimamanda Adichie)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

o escuro me ilumina


"Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores."

- Manoel de Barros

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

mensageiro de natal


Para mim, uma perfeita tradução do espírito do Natal: despertar e ir ao encontro do outro.

Gustavo Oliveira, estudante, 18 anos, narra ao repórter Roberto de Oliveira a sua experiência de escrever cartões natalinos para passageiros que transitam no terminal rodoviário Tietê, em São Paulo, o maior do Brasil.


"Ela chegou confiante. Puxou a cadeira na minha frente do outro lado da mesa. Sentou-se. Em suas mãos, passaram os quatro modelos de cartões de Natal que temos.

Olhou cuidadosamente cada um deles. Ensaiou pegar uma caneta, mas não avançou. Daí, ficou desconcertada. Cabisbaixa, olhou bem nos meus olhos e confessou com a voz engasgada que não sabia ler nem escrever.

Disse ter 23 anos de idade e ter deixado Manaus para trabalhar como doméstica em São Paulo. Veio mesmo atrás do marido. Era bem bonita.

Com ela, trouxe o filho, de sete anos. Tudo isso ela me contou ali, enquanto ensaiava algumas frases para que eu colocasse em seu cartão de Natal. De certo apenas o destinatário: o marido que ela iria deixar por aqui.

Eu até que mostrei as seis listas com as sugestões de frases, mas aquela moça, como tantos outros que passam diariamente pelo Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, prefere assim: contar um pouco da sua história para que, a partir dela, eu ou os meus colegas escrevamos o que a gente achar melhor.

Pergunto sobre a relação deles com os parentes. Afinal, a expressiva maioria dos cartões de Natal que escrevo é endereçada a algum familiar.

Ao fechar o envelope, a sensação que aquela moça me passou foi a de que estivesse encerrando um ciclo de sua vida. Como se dissesse adeus ao marido. Percebi que tal rompimento ainda não estava bem resolvido para ela.

Ao se despedir, ela me contou que iria visitar uma tia-avó que mora no Espírito Santo. Nem ela parecia acreditar que a viagem seria curta. Voltou-se para o menino, segurou a mão dele e partiu.

Na minha cabeça de garoto da zona oeste paulistana, filho único de uma família de classe média, ligado às novas mídias digitais, tinha uma visão equivocada sobre o perfil dos analfabetos brasileiros.

Até então, acreditava que quem não sabia ler nem escrever eram velhinhos, gente que veio de lugares pobres e desassistidos das zonas rurais brasileiras. Graças a essa experiência que estou passando na rodoviária do Tietê, vejo que não é bem assim.

As desigualdades no Brasil são tão gritantes que provocam todos os tipos de distorção. De cada dez pessoas que sentam aqui interessadas em um cartão de Natal, ao menos três são analfabetas. É muito surpreendente para um país que se diz "rico".

Desencontros

Apesar de estar escrito que o cartão e o envio dele são gratuitos, a primeira pergunta que as pessoas me fazem é se é de graça. Há aqueles que sabem escrever muito bem e até me corrigem. Falam quando há "vírgula", "dois pontos", "exclamação". Elas se sentem orgulhosas em ditar.

Quase ninguém sabe o CEP.

Na semana passada, uma senhora bem arrumada enviou um cartão de Natal para o marido e para o ex-marido.

Até aí, tudo bem, mas um detalhe curioso me chamou a atenção: os dois moram na mesma rua.

São quase vizinhos. Ainda perguntei para ela se de fato os endereços estavam certos. Ela confirmou.

Um rapaz de 25 anos contou que foi afastado da mãe quando criança. O pai veio da Bahia para trabalhar em São Paulo e trouxe o bebê junto.

Fazia mais de 20 anos que ele não via a mãe. Emocionou-se ao me pedir para que escrevesse um cartão de Natal narrando sua vida, seu emprego e suas esperanças de em breve reencontrá-la. Fiquei emocionado ao ouvi-lo.

Nesse caso, ele mesmo fez questão de escrever o cartão de próprio punho.

Outra crença que se mostrou diferente da realidade foi a de que eu imaginava que o ciclo de nordestinos que vêm trabalhar em São Paulo havia se encerrado há tempos. Só que eu estava enganado.

Muitos deles chegam todos os dias a esta rodoviária. Parte deles não sabe ler nem escrever. Quase todos ficam completamente perplexos quando olham para o metrô.

Essa grandiosidade de São Paulo surpreende e assusta.

Também aqui ficou mais explícito para mim como o preconceito contra os nordestinos ainda persiste.

Meus pais também vieram de fora. São mineiros. Tenho a pela morena. Tive a sorte de crescer cercado de privilégios e nunca sofri preconceito.

Ao escrever cada palavra, frase, cartão de Natal, eu me sinto um pouco realizado.

Quando coloco o cartão no envelope, tenho a sensação de que é possível, sim, tornar esse mundo ao menos um pouco mais humanitário.

Ou será que estou apenas sob o efeito do Natal?"

Fonte