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sábado, 18 de janeiro de 2014
é preciso saber aceitar as próprias pausas
"É preciso saber aceitar as próprias pausas. (...)
No fundo, as cartas a Deus são as únicas cartas de amor que devem ser escritas. (...) É preciso ser capaz de viver sem livros e sem nada. Sempre haverá um pedacinho de céu que se pode olhar e um espaço suficiente dentro de mim para juntar as mãos em uma oração. (...)
A minha vida tornou-se um diálogo ininterrupto contigo, meu Deus, um único grande diálogo. Às vezes, quando estou em um cantinho do campo, os meus pés plantados na sua terra, os meus olhos voltados para o teu céu, o meu rosto se inunda de lágrimas que brotam de uma emoção profunda e de gratidão. Mesmo à noite, quando, deitada no meu leito, me recolho em ti, meu Deus, lágrimas de gratidão inundam o meu rosto: e essa é a minha oração."
- Etty Hillesum, aqui
sábado, 11 de janeiro de 2014
o sagrado está nos detalhes
Um deslumbramento visual este Kingdom of Plants ("Reino das Plantas"), documentário da BBC realizado nos Kew Gardens, Londres, santuário mundial da UNESCO desde 2003. Porque a beleza - e o sagrado - estão nos detalhes; e os milagres estão acontecendo aqui mesmo, e agora.
Via Hypeness
os bebês falam
Quando na juventude de minha formação psicanalítica, tive a oportunidade de passar algumas tardes naquele local, acompanhando o trabalho de Dolto, já, então, ícone da psicanálise dita infantil.
Em uma tarde, um casal relativamente jovem chegou para a consulta com cara de desespero. Traziam um bebê nos braços, o qual aparentava uma fraqueza importante. Deveria ter uns três ou quatro meses de vida.
Dolto, cheia de atenção vigilante e afetuosa, ficou sabendo dos pais que ao desespero da criança que não comia, razão por estar esquálida, somava-se a preocupação com o desemprego do pai, a sobrecarga da mãe, e as contas que não fechavam no mês.
Assisti, em seguida, Françoise Dolto se dirigir diretamente ao bebê, sem qualquer atenção ao fator compreensão, e lhe explicar, olhos nos olhos, que ela, Dolto, entendia muito bem que ele não quisesse comer, uma vez que sua chegada poderia ser pensada como em má hora, e que o melhor talvez fosse desaparecer. Contestou, no entanto, afirmando que ele estava enganado, pois sendo tão querido e esperado, sua morte precoce retiraria dos seus pais o único efetivo alento naquele momento difícil de vida. E assim se despediu dos três – filho, mãe e pai –dando-lhes um retorno para a semana seguinte. Quando saíram, Dolto me disse: -'Você vai ver só o que vai acontecer'.
No segundo encontro, confirmando a previsão da analista, eram outras pessoas que estavam ali. O bebê estava comendo, e bem.
Ao final do atendimento, a doutora me falou: -'Você viu como os bebês falam? Você viu a prova?'. Aí, para mim, foi demais. Com a delicadeza devida, contestei que não era que bebês falassem, mas que – como Lacan havia demonstrado no estádio do espelho... – ao ela falar com o bebê, estava realmente falando a seus pais que, por conseguinte, tinham mudado sua posição e possibilitado a alteração sintomática.
Dolto não me deixou avançar muito em minha peroração. –'Sim, sim – me retorquiu – eu também conheço o ‘seu Lacan’ e bastante bem. Além de companheiros de toda uma vida, somos mesmo muito amigos. Agora, que ele o diga com o espelho, é interessante, quanto a mim, digo e mostro – como você viu – que os bebês compreendem e sabem falar'.
Pano rápido."
- Jorge Forbes (compartilhado por Marcus Quintaes)
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
poema de natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
- Vinicius de Moraes, via
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
o instante que passa
(via)
Existe somente uma idade para a gente ser feliz. Fase dourada em que se pode criar e recriar a vida à imagem e semelhança dos nossos desejos. Essa idade tão especial e tão única chama-se presente... e tem apenas a duração do instante que passa.
- Mário Quintana
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
milagres
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
(Manuel Bandeira)
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
nós somos o tempo
“O tempo não está fora de nós, nem é algo que passa diante dos nossos olhos como os ponteiros do relógio: nós somos o tempo, não são os anos que passam, mas nós que passamos. O tempo possui uma direção, um sentido, porque ele é nós mesmos.
O ritmo realiza uma operação contrária à de relógios e calendários: o tempo deixa de ser medida abstrata e volta a ser o que é: algo concreto e dotado de uma direção. Contínuo emanar, perpétuo ir além, o tempo é um permanente transcender-se. Sua essência é o “mais” — e a negação desse mais. O tempo afirma o sentido de um modo paradoxal: possui um sentido — o ir além, sempre fora de si – que não cessa de negar a si mesmo como sentido. Destrói-se e, ao se destruir, repete-se, mas cada repetição é uma mudança. Sempre o mesmo e a negação só mesmo. Assim, nunca é apenas medida, sucessão vazia. Quando o ritmo se desdobra à nossa frente, algo passa com ele: nós mesmos. No ritmo há um “ir para” que só pode ser elucidado se, ao mesmo tempo, se elucida o que somos nós. [...]
A relação entre ritmo e palavra poética não é diferente da existente entre dança e ritmo musical: não se pode dizer que o ritmo é a representação sonora da dança; tampouco que a dança seja a tradução corporal do ritmo. Todas as danças são ritmos; todos os ritmos, danças. No ritmo já está a dança e vice-versa.”
- Octavio Paz, via
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