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domingo, 12 de janeiro de 2014

a propósito do pai nosso (2)


Dou continuidade à proposta iniciada no domingo passado de publicar, em 5 partes, a reflexão de Simone Weil sobre a oração do Pai Nosso. Para meditar, orar e, espero, favorecer o contato com o sagrado, seja qual for a sua crença.

Para acessar o texto completo, clique na tag "pai nosso".

Seja feita a vossa vontade
Nós nunca estamos absoluta e infalivelmente certos da vontade de Deus, a não ser em relação ao passado. Todos os acontecimentos já sucedidos, quaisquer tenham sido, estão de acordo com a vontade do pai Todo-Poderoso. Isto está implícito na noção de onipotência. O futuro também, tal como venha a ser, uma vez consumado, o terá sido de acordo com a vontade de Deus. Não podemos acrescentar nem subtrair nada a esta conformidade. Então, após um apelo do desejo (venha a nós o vosso reino) em direção ao possível, uma vez mais pedimos aquilo que é (seja feita a vossa vontade). Mas não mais uma realidade eterna como é a santidade do Verbo. Aqui o objeto de nossa demanda é aquilo que se produz no tempo. Mas pedimos a conformidade infalível e eterna daquilo que se produz no tempo com a vontade divina. Depois de ter, pelo primeiro pedido, arrancado o desejo ao tempo para aplicá-lo ao eterno, e tê-lo assim transformado, nós retomamos este desejo, tornado ele próprio, de certa forma eterno, para aplicá-lo de novo ao tempo. Então nosso desejo rasga o tempo para encontrar atrás a eternidade. É aquilo que se passa quando sabemos fazer de todo acontecimento sucedido, qualquer tenha sido ele, um objeto do desejo. Eis aí algo totalmente diferente da resignação: a palavra aceitação mesma é muito fraca. É preciso desejar que tudo que aconteceu tenha sucedido, e nada além disto. Não porque o que tenha acontecido seja bom aos nossos olhos, mas porque Deus o permitiu, e porque a obediência do curso de acontecimentos a Deus é em si própria um bem absoluto.

Assim na terra como no céu
Esta associação de nosso desejo à vontade toda-poderosa de Deus deve estender-se às coisas espirituais. Nossas ascensões e quedas espirituais e aquelas dos seres que amamos mantêm um relacionamento com o outro mundo, mas são também acontecimentos que se produzem aqui embaixo, no tempo. Neste sentido, cada detalhe neste imenso mar de acontecimentos está articulado com o todo de um modo conforme à vontade de Deus. Posto que nossas faltas anteriores já foram cometidas e nós devemos desejar que elas tenham sido cometidas. Devemos estender este desejo ao futuro, considerando o dia em que ele tenha se convertido em passado. Esta é uma correção necessária à demanda de que o reino de Deus venha a nós. Devemos abandonar todos os desejos por aquele da vida eterna, mas precisamos desejar a vida eterna, ela própria, com desprendimento. O apego à salvação é ainda mais perigoso que os outros. É preciso pensar na vida eterna como pensamos na água quando mortos de sede, e ao mesmo tempo desejar para si e para os seres queridos a privação eterna desta água, mais do que estar plenos dela contra a vontade de Deus, se tal coisa fosse concebível. As três demandas precedentes estão relacionadas às três Pessoas da Trindade, o Filho, o Espírito e o Pai, e também às três partes do tempo: o presente, o futuro e o passado. As três demandas seguintes se referem mais diretamente às três partes do tempo em outra ordem, presente, passado, futuro.

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Texto original:

WEIL, Simone. À propos du "Nôtre Père", In Attente de Dieu. Paris: Flamarion, 1996. Tradução de Elisa Cintra.

Tradução publicada originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil

domingo, 5 de janeiro de 2014

a propósito do pai nosso (1)


Publico aqui, a partir de hoje e pelos próximos 4 domingos, a bela reflexão de Simone Weil sobre a oração do Pai Nosso. Para meditar, orar e, espero, aprofundar o contato com o sagrado, seja qual for a sua crença.

Para acessar o texto completo, clique na tag "pai nosso".

Pai-nosso que estais nos céus
Ele é nosso Pai, não há nada de real em nós que não proceda dele. Nós pertencemos a ele. Ele nos ama, posto que ama a si próprio e que pertencemos a ele. No entanto é o Pai que está nos céus. E não em outra parte. Se acreditássemos ter um Pai aqui em baixo, seria um falso Deus (um ídolo ou ideal ). Não podemos dar um único passo em direção a Deus. Pois não sabemos caminhar verticalmente. Não podemos dirigir a ele a não ser o nosso olhar. A questão, portanto não é sair em sua busca, mas apenas mudar a direção do olhar. É tarefa dele, vir atrás de nós. É preciso alegrar-se por saber que ele está infinitamente além de nosso alcance. Sabemos então que o mal em nós, mesmo se puder nele submergir todo o nosso ser, não poderá de maneira alguma manchar a pureza, a felicidade e a perfeição divinas.

Santificado seja o teu Nome
Somente Deus tem o poder de se nomear a si próprio. O seu nome é impronunciável para os lábios humanos. O nome dele é a Palavra. É o Verbo. (É o Logos). O nome dos seres em geral é uma ponte entre o espírito humano e aquele ser, o único caminho por onde o espírito humano pode captar alguma coisa daquele ser quando está ausente. Deus está ausente, está nos céus. Seu nome é para o homem a única possibilidade de ter acesso a ele. É o Mediador. (É Cristo, o Amor Misericordioso). O homem tem acesso ao nome, embora ele também seja transcendente. Este nome – é o Logos eterno que brilha na beleza e na ordem do mundo e na luz interior da alma humana. Este nome é santidade, ela própria, não há nenhuma santidade fora dele, não há nada nele a ser santificado. Quando imploramos a sua santificação, imploramos por aquilo que é eternamente com uma plenitude de realidade à qual não se pode acrescentar ou retirar nem uma ínfima parcela. Invocar aquilo que é, que é real, infalível, eternamente, de uma maneira independente de nossa vontade, esta é a perfeição da demanda. Não podemos impedir-nos de desejar, nós somos desejo; mas este desejo que nos aprisiona ao imaginário, ao tempo ao egoísmo, nós podemos, se o fizermos passar todo inteiro através desta demanda, fazer dele uma alavanca que nos arranca do imaginário para o real, do tempo para a eternidade e para fora de toda prisão do eu.

Venha a nós o vosso reino
Trata-se agora de algo que deve vir (advir), que ainda não está lá. O reino de Deus é o Espírito Santo, preenchendo completamente toda a alma das criaturas inteligentes. Para nós, só é possível invocá-lo. É preciso não deter o pensamento em um modo particular de invocá-lo. Que pensar nele seja um apelo e um grito. Da mesma maneira que quando estamos no limite da sede, quando estamos doentes de sede, não representamos mais o ato de beber referido a nós próprios, nem mesmo o ato de beber em geral. Representamos apenas a água, a água em si mesma, mas esta imagem da água é como um grito de todo o ser.

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Texto original:

WEIL, Simone. À propos du "Nôtre Père", In Attente de Dieu. Paris: Flamarion, 1996. Tradução de Elisa Cintra.

Tradução publicada originalmente no site da Comunidade Mundial de Meditação Cristã no Brasil