segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

o caminho de abraão: uma estrada para o diálogo


Patriarca das três maiores religiões do monoteísmo semítico, Abraão é uma figura referencial para judeus, cristãos e muçulmanos. Seu itinerário geográfico e espiritual pode se transformar também em eixo de convergência no conturbado cenário do Oriente Médio


Por Nilton Bonder


Uma iniciativa bastante ousada e criativa da universidade de Harvard já há vários anos tenta estabelecer uma rota de peregrinação pelo Oriente Médio trilhando a caminhada de Abraão desde sua cidade natal até o local de seu sepulcro. A ideia se baseia no renascimento de trilhas com valor histórico-espiritual, nos moldes do Caminho de Santiago de Compostela. Esse caminho de peregrinação medieval havia quase que perdido por completo seu significado no mundo moderno quando foi reativado nas últimas duas décadas. No ano passado, cerca de um quarto de milhão de pessoas percorreu parcial ou integralmente os seus mais de seiscentos quilômetros.

A união do aspecto físico, o sacrifício de caminhar, com os múltiplos encontros que se processam durante o percurso fizeram del Camino um ícone de integração e espiritualidade.

Com esse espírito, o Departamento de Negociação de Conflitos de Harvard desenhou um projeto que se estenderia por vários anos, tentando estabelecer uma rota semelhante no Oriente Médio. Abraão é o patriarca e a inspiração das três grandes religiões semíticas, judaísmo, cristianismo e islamismo, um pai de toda a região. Se fosse possível criar um caminho que cruzasse vários países, gerando desenvolvimento do comércio e do turismo, bem como promovendo seu intercâmbio cultural, sem dúvida isso constituiria uma contribuição e um avanço na questão da paz regional. Mais do que focar as diferenças e desavenças, o Oriente Médio muito poderia lucrar em enfatizar semelhanças e compartilhamentos. Seria uma maneira de reforçar plataformas de integração que alicerçassem os esforços diplomáticos, visando maior estabilidade e paz para a região.

Hospitalidade e boa vizinhança
Abraão, o pai das multidões, é pai de todas as ramificações religiosas da região. E se não for por força do pai, quem estabelecerá que os filhos todos se sentem à mesa? Mais, Abraão é um pai que dedicou sua vida à hospitalidade e à boa vizinhança. Um pai que tem como qualidade maior ser um homem de bem – não um herói, nem um mago, nem um bem-sucedido, mas um homem com suas convicções e com sua humildade. E de onde vinham seus poderes? Não há característica maior de sua personalidade do que o andarilho, o peregrino em busca de sua Terra Prometida.

Entender o significado profundo de Abraão corresponde a entender o ser humano como um caminhante entre seu nascer e seu sepulcro. A terra, o chão por onde ele se conhece e se mantém, talvez seja mais um meio do que um fim, mais um cenário do que uma propriedade.

A peregrinação é uma prática bastante antiga. Desde que o homem se tornou sedentário, o ato de deixar a terra natal e seguir em uma direção que esteja atrelada a um sonho ou projeto faz parte dos recursos espirituais humanos. É a base do livro do Gênesis, que é a saga de um andarilho, cujo sonho é tão singelo e básico, mas que está sempre por se realizar ou ameaçado de se perder. Talvez seja simbólico da vida que a tenhamos sempre em movimento, sempre em risco e sempre entre realizar-se no presente e no futuro. Talvez simbólico de uma condição temporária, um equilíbrio instável, onde nossa existência espiritual se assemelha à crença de que tubarões não podem parar de se movimentar para não morrerem asfixiados.

“Sai de tua casa, de tua parentela!”
Seja como for, a idéia de peregrinação está incrustada na espiritualidade. Os judeus peregrinavam a Jerusalém três vezes ao ano, os muçulmanos, a Meca, os católicos, a vários pontos de valor histórico e espiritual. Também os mestres chassídicos se impunham o golus, a peregrinação cega, sem destino, quando deveriam abandonar sua soberba e despir-se de suas ilusões.

O convite de Harvard previa sairmos de Harã, no centro-sul turco, em direção a Hebrom ou Al Khalil, “o amigo [de Deus]”, passando pela Síria, parte do Líbano, Jordânia, Palestina e Israel. A primeira é a cidade identificada com seu nascimento, a segunda, com seu sepulcro. Na verdade, o texto bíblico aponta Ur, hoje no Iraque, como sendo o local de nascimento de Abraão. Como eu viria a descobrir, na viagem existem inúmeras lendas e tradições sobre o local de nascimento de Abraão. Harvard assumiu Harã como ponto de partida inicial por razões práticas e de segurança, uma vez que a instabilidade político-militar no Iraque é proibitiva a qualquer projeto dessa natureza. Mas a verdade é que se Harã não é o berço da natalidade biológica de Abraão, é o local de seu despertar espiritual e de seu nascimento para a história universal. Lá ele ouve o comando divino: “Sai de tua casa, de tua parentela e de tua cultura para a terra que te mostrarei!”.

Nosso projeto era estar geográfica e temporalmente nas coordenadas de Abraão. Eu teria de sair do Rio e me encontrar com o grupo que realizaria a primeira expedição do roteiro completo da caminhada de Abraão partindo de Harã.

Via Paris, Istambul e Sanliurfa, cheguei a Harã na tarde da sexta-feira e me hospedei no único hotel da cidade. Lá encontraria os companheiros de viagem. Chovia, na terra de Noé. Mais, era uma inundação, que, graças aos céus, foi menor do que a experimentada pelo personagem bíblico. Isso não impediu que estivéssemos em uma pequena arca composta de americanos estudiosos da área de negociação, membros de ONGs pela paz, especialistas em tracking (longas caminhadas), um representante católico, um muçulmano e eu, o judeu.

A missão do grupo era executar a caminhada, reunir-se com lideranças locais apresentando o projeto e refletir sobre os múltiplos significados e aspectos do trajeto. Obviamente, nenhum dos três objetivos foi esgotado. Em alguns trechos caminhamos, mas tivemos de viajar também em veículos, dada a precariedade do caminho, ainda muito longe de se tornar hospitaleiro. Também a solidariedade incerta ao projeto por parte de alguns governos gerava certa tensão, por gozarmos ora da condição de bem-vindos, ora de recepções menos cordiais. E a riqueza simbólica do trajeto ainda tem muito por ser desvendada e desenvolvida.

No entanto, para mim, o judeu, o rabino e o peregrino, foi uma viagem, no sentido popular da palavra. Hospedar-me em terras tão cheias de significado, de familiaridade por conta da ancestralidade, alguém que se sente tão em casa naquele mundo, ou sente estranheza por conta dos desacordos e da beligerância ainda vigentes entre Israel e o mundo árabe, teve o efeito de uma verdadeira peregrinação.

Quando Deus se revela a Moisés no deserto, na forma de uma sarça ardente que não se consome, ordena-lhe que retire os sapatos, porque pisava em uma terra santa. Retirar os sapatos simboliza sair do habitual, abrir mão de certezas e estar sagradamente exposto ao novo e a diferentes possibilidades. Passar por aquelas terras abraâmicas sem tirar os sapatos seria por demais herético. E foi o que fiz, despi-me do olhar judaico, do olhar rabínico, das certezas e dos dogmas, para acolher o convite do anfitrião. Esse anfitrião não eram países ou localidades, era o humano que habita todas as regiões deste planeta. Esse humano que pode ser tão cruel e perverso, mas que sabe repartir pão e que reconhece no peregrino, no estrangeiro, sua própria condição.

Diz-se que o peregrino é aquele que começa com um grande equipamento tentando antecipar qualquer adversidade do caminho e termina sem nenhuma bagagem. Pelo caminho vai descobrindo que a hospitalidade humana provê e que o ser humano se faz agente de Deus. É o encontro da gentileza com o pouco precisar, da solidariedade e do despojamento. Nada mais significativo do que deixar pelo caminho as certezas, as defesas carreadas para a viagem que teria de fazer enfrentar a visão do outro, dos que viajavam comigo e de nossas diferenças, e dos vários povos com suas dores e esperanças.

Prédios de 3 a 4 mil anos
Desfilaram diante de meus olhos o Eufrates, onde se banharam Adão e Eva; a cidade de Alepo, com sua magia, berço de uma comunidade judaica afluente, cujo bairro está intacto porque os vizinhos ficaram constrangidos de tomar para si suas casas, dado o respeito que tinham pelos judeus; ou Damasco, com sua impressionante arquitetura, de uma antigüidade tal que faz de Jerusalém uma cidade “moderna”. Prédios de 3 a 4 mil anos e jovens pelas ruas – poderiam ser jovens em Tel Aviv, mas eram jovens em Damasco. Um mercado de Aladim, história e pré-história por todos os lados. Entrar no Museu Nacional e ver a sinagoga de Dura Europas, a mais antiga sinagoga preservada. Tudo isso acompanhado de muitos encontros com pessoas, em meio a um grupo que se esforçava por estar emocional e culturalmente aberto, não defendido em relação a suas crenças e convicções.

O deserto sírio, o mosteiro encravado no último reduto antes do implacável deserto que ia de Palmira até o oriente na rota da seda. As inúmeras tendas de Abraão, que pontilharam lugares remotos cujos nomes não me lembro. A Jordânia e as estradas mais antigas da humanidade, Amã com sua realeza e suas idiossincrasias. Os territórios palestinos com sua dor que malignou em ira. Retorno à infância de um ódio que aponta: “Quem começou foi ele”. Território do desencontro de todos os que querem legitimar a si e expõem sua “imparcialidade”. O lugar onde as versões se multiplicam antes que se possa dar entendimento à última surgida. E a confusão de Babel se impõe. E a vileza do entendimento pelas armas e pela pedra se sobressai à escuta e ao bom senso. Estar em reunião com os mufti de Hebrom e sua percepção dos meus irmãos judeus, de mim como parte, com tanta desconfiança e tanto ressentimento, e não ser refratário a esses sentimentos. Estar com parlamentares do Hamas e sua fala tão universal de radicalidade. Poderiam ser do MST, no Brasil, falando sobre latifundiários, a mesma suspeição e prevenção construídas da percepção de humilhação pelo outro, de aviltamento pelo outro. Conhecer a cerca do outro lado. De um lado representando a segurança e o direito de não ser morto numa pizzaria ou num ponto de ônibus. Do outro, a insuportável semelhança com o gueto, com prisões e com confinamento.

Poder olhar o soldado israelense não do lado onde ele é o herói, aquele que defende muito mais do que um país e monta guarda contra todo o sofrimento de um povo violentado e humilhado por milênios. Porém, vê-lo desse lado diferente, imobilizando, estruturado para reprimir e submeter, faz ver que não há muro que não tenha um outro lado. E pelo olhar de Abraão mais dolorosa ainda é paisagem. Com certeza ele não imaginava que por tantas gerações ainda se seguiria o sacrifício de ambos os filhos.

Mas por mais dolorosa que seja a realidade de um conflito e as cicatrizes profundas que infligiu, o Caminho de Abraão tem esse maravilhoso potencial de trocar os olhares. Se cada um fosse conhecer a realidade desde o muro de lá, talvez pudesse honrar mais a herança de seu patriarca. Quando se conhece o que é o muro do lado de lá, o muro por definição cai. É que ele é constituído justamente para não olhar o outro lado, para produzir a sensação de que o outro desapareceu.

Hoje estão mapeados trechos do Caminho pela Turquia e Jordânia. A idéia é prosseguir e, com a ajuda das comunidades locais, estabelecer a infra-estrutura mínima para que grupos iniciem sua jornada. Eventos também estão sendo promovidos pelo mundo, apresentando a proposta do Caminho de Abraão. Em Paris, um grupo caminhou de uma sinagoga a uma igreja e a uma mesquita no último mês de abril. Caminhadas semelhantes são imaginadas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A pluralidade cultural e a diversidade de paisagens inundam os olhos de quem percorre o Oriente Médio. Ali está mais do que a história de várias culturas, está a pré-história de toda a humanidade. A figura de Adão responde pela existência de uma única família humana. Já a de Abraão sonha com a paz entre irmãos. Uma paz que Adão não alcançou com os seus. Uma paz que se estenda para além dos vínculos de sangue e que abra a tenda ao peregrino nas quatro direções. Talvez só quando seus filhos caminhem por seu caminho possam descobrir a humildade de Abraão. Humildade que não o angustiou por não ser o proprietário da terra para a qual migrou. Afinal, mais do que possuí-la por sua efêmera existência, ele se fez pai e senhor de toda ela para sempre.

O “amigo de Deus” é aquele que se faz “amigo dos homens”. Um modelo ainda por ser compreendido no futuro.

Nilton Bonder é rabino da Congregação Judaica do Brasil, coordenador para a América Latina do Movimento Jewish Renewall, ex-presidente do Iser (Instituto Superior de Estudos da Religião) e autor de dezessete livros. Texto publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil.

Saiba mais sobre o Caminho de Abraão no site

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